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Sexualidade(s) e Gênero, convocações à Psicanálise

Por Andrea Mongeló - Psicanalista da Sigmund Freud Associação Psicanalista de Porto Alegre

O tema da sexualidade está presente na psicanálise desde seus primórdios, e atravessa toda sua construção. Para a sociedade Vienense da época, sabemos o quanto isso foi impactante, principalmente a ideia da sexualidade infantil, apontada por Freud. E foi tentando dar conta de tudo que suscitava, que a psicanálise se difundiu e cresceu.

E hoje, será que estamos em um momento de quebra de paradigma da psicanálise, pelas questões também relacionadas à(s) sexualidade(s) dos nossos tempos?


As interrogações que envolvem sexualidade e gênero vem convocando a psicanálise a se manifestar, e tensionando conceitos que fazem parte de seu pilar de sustentação, como o Complexo de Édipo. Em decorrência disso, obras se multiplicam tentando dar conta desses tensionamentos e discutir fora do campo psicopatológico, os fenômenos contemporâneos ligados ao gênero.


Duas obras fazem uma abordagem abrangente do tema: O lugar do gênero na psicanálise de Felippe Figueiredo Lattanzio, e Psicanálise, Sexualidade e Gênero – um debate em construção, que faz parte da Coleção do Depto de formação em Psicanálise do Sedes Sapientiae, e reúne diversos autores.


Começando por esse último, encontramos uma coletânea de textos que possibilitam uma visão ampla das múltiplas questões que a temática suscita. Um dos capítulos muito interessantes para a discussão do tema, é intitulado Psicanálise e estudos de gênero: uma com-versa onde as autoras Gisele Assuar e Lígia Polistchuck fazem uma contextualização histórica do tema e mostram aproximações e diferenças fundamentais entre os dois campos. Assim como os capítulos de Christian Dunker e Pedro Ambra, que questionam como construir uma psicanálise que se permita pensar questões de seu tempo, dialogando com outros saberes não psicanalíticos, como as ideias de Judit Butler.

Outros capítulos pensam as questões ligadas a infância, e me parecem fundamentais para quem recebe crianças em sua clínica. Entre elas, a atenção para o quanto na infância as construções são temporárias e abertas, com o cuidado de não tomar a brincadeira, como a verdade do sujeito ainda em processo e que precisa ser escutado em todas as suas fantasias. A questão da parentalidade e as organizações familiares, também são contempladas em dois capítulos.


O livro de Felippe Lattanzio, faz um mergulho profundo na metapsicologia, colocando foco no primado do masculino e no caráter falocêntrico da psicanálise, que se mantém até hoje, desde os seus primórdios. Articulando o conceito de gênero com a metapsicologia, passando pelas construções da feminilidade e masculinidade, amparado em autores como Laplanche e Jacques André, temos uma obra que nos ajuda a compreender as novas formas de subjetivação dos nossos tempos.


Paulo Roberto Ceccarelli, relança em 2017 seu livro Transexualidades, começando pela modificação no próprio título, que em 2008 era Transexualismo. O que demonstra um avanço, já que o sufixo ismo caracteriza uma denominação patológica, enquanto ade, um modo de ser, conforme o próprio autor já ressalta no prefácio.

Após retomar a presença do tema da transexualidade desde a mitologia greco-romana, passando por vários momentos da literatura, Ceccarelli faz uma recuperação histórica do sentimento de ser do outro sexo, que os transexuais afirmam sentir.

Sua proposição é explorar e discutir a construção do sentimento de identidade sexual, a partir de sua tese de doutorado realizada na Universidade de Paris VII, em 1995. A construção da identidade sexual, que encontra na teoria lacaniana seus referenciais, perpassa todo o livro.


Será que as questões de gênero, são nesse momento, equivalentes aquelas da sexualidade infantil que Freud enfrentou na Viena do século passado? Se está em curso ou não uma quebra de paradigma em psicanálise, é difícil afirmar. Mas movimentações teórico-clínicas se fazem urgentes, a fim de que possamos seguir pensando na singularidade do desejo dos sujeitos. Judit Butler disse uma frase muito interessante em uma entrevista sobre o tema, para a revista Cult de 2015: “o questionamento da norma, não é a sua destruição, mas a busca por normas que melhor nos sirvam”.


Andréa Mongeló – Psicanalista da Sigmund Freud Associação Psicanalítica.







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