• Joana C.

Psicossomática – O corpo como destino

Escutamos com certa frequência, comentários do tipo você está somatizando, não está doente, é stress, sobre certos sintomas ou doenças. Nesses tempos de pandemia do corona vírus, muitas foram as pessoas que se viram ainda mais atentas a mínimos sinais e mudanças no corpo, assustadas com a possibilidade de estarem contaminadas, e se perguntando se os sintomas eram reais ou somatizações.

Algumas doenças podem ser caracterizadas como de origem psicossomática: as alergias, a psoríase, as úlceras, a síndrome do cólon irritável, o vitiligo, a asma, entre outras. Mas raros são os pacientes que vão procurar diretamente um psicanalista ou psicólogo, em função de alguma dessas doenças. Eles procuram um médico, e dependendo da sensibilidade desse, poderá sugerir uma psicoterapia ou análise em paralelo ao tratamento clínico.


Mas o que são doenças de origem psicossomática?

Tendo como referência a chamada Escola Psicossomática de Paris, liderada pelo psicanalista Pierre Marty, o princípio básico da psicossomática é que a mente, que tem como função assimilar traumatismos impostos em alguns momentos da vida, pode não cumprir essa tarefa. Ao não assimilar esse traumatismo, acontece uma sobrecarga sobre o soma - corpo, que resultará no que chamamos de somatização. Essa capacidade de assimilação tem limites, e esses variam conforme o indivíduo, e em um mesmo indivíduo, podem variar conforme o momento de vida em que ele se encontre. A impossibilidade de assimilar, elaborar psiquicamente deixa esse excesso vivido, livre para chegar ao plano somático, ou seja ao corpo.

É possível fazermos um paralelo com um bebê. Por não ter palavras para expressar seu sofrimento, um bebê vai chorar, gritar, espernear, quer dizer, terá comportamentos automáticos de descarga. O sintoma somático cumpre essa mesma função para o paciente: manifestar um sofrimento que ele não consegue expressar de outra maneira. Reações somáticas tomam o lugar das reações simbólicas.

As doenças psicossomáticas e seus sintomas, não possuem um sentido simbólico, ao contrário, esses pacientes possuem precárias capacidades de simbolização. E por isso, utilizam o corpo como veículo de descarga para os excessos e angústias, de traumas que não puderam ser elaborados pela via da representação, da palavra.

Então, quando esses pacientes vão procurar um psicanalista ou psicólogo, não necessariamente falam de seus sintomas, porque não vêem como essa experiência tem a ver com o resto de sua história, fazendo uma separação entre o corpo e o psíquico. Mas ao falar de outros assuntos, seus sintomas melhoram, muitas vezes por encontrarem palavras para nomear sentimentos que antes eram descarregados no corpo. E também, porque recuperam sua própria história, restabelecem modos de relação com o outro, e tudo isso vai trazendo mais capacidade de simbolização e enfrentamento, dos traumatismos com os quais poderá se deparar ao longo da vida.


Como indicação de leitura para quem deseja se aprofundar no tema, deixo como sugestão:

- Psicanálise e Psicossomática – casos clínicos, construções. Ana Maria Soares, Cristiana Rodrigues Rua, Rubens Marcelo Voluch, Maria Elisa Pessoa Labaki(organizadores)

- Dor e Pensamento – Psicossomática Contemporânea. Marília Aisenstein

- Psicossomática, Final de análise, Psicoterapia e outros estudos. Livro anual de Psicanálise XXVI – 2012.

- Teatros do corpo – O psicossoma em psicanálise. Joyce McDougall

- Dor psíquica, dor corporal – Uma abordagem multidisciplinar. Victoria Regina Bejar (org.)





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