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  • Joana C.

Psicanálise e política: entrelaçamentos possíveis

Durante muito tempo, o tema da política esteve afastado da psicanálise, com um certo silêncio das e nas instituições psicanalíticas sobre ele, não só no Brasil, como no mundo. Era tratado com algum pudor entre os psicanalistas, ou até mesmo como um sintoma a ser analisado. Ainda persiste, entre alguns grupos, uma ideia de que política, gênero, etnia e raça não deveriam ser articulados por psicanalistas. Como se a psicanálise fosse um saber teórico e técnico, somente sobre estruturas psicopatológicas, e que não pudesse contribuir para pensar outros assuntos. Mas esse é um cenário que

vem se modificando, tanto no mundo quanto no Brasil. E o efeito disso pode ser observado nas inúmeras publicações que são lançadas sobre o tema.


Um dos últimos lançamentos é de Antonio Quinet, A política do psicanalista - Do divã para a polis, que é composto de escritos iniciados pelo autor durante o ano de 2016, até outros referentes aos dias atuais. Quinet provoca, dizendo que os analistas despertaram de um sono profundo de neutralidade e deram-se conta que somos todos seres políticos. Confirmando a mudança apontada acima. Ao se utilizar do termo Pólis, usa-o no sentido de evocar a atuação do psicanalista na sociedade, em um compromisso de reflexão das subjetividades de sua época. Para ele, é possível escutar o que diz a pólis,

no divã, já que o que se passa nela de forma mais ampla, se escuta no divã, de forma singular.

A partir desses pressupostos, o livro perpassa por vários temas, como por exemplo, a fragilidade dos laços sociais. Discute a partir de textos freudianos: Metapsicologia (1915) e Reflexões para os tempos de guerra e morte (1915), o fato de que, a guerra de hoje não necessita de fuzis para corromper o laço social, o discurso capitalista e seu gozo são mais que suficientes. Discute também, questões de identidade sexual e gênero, apoiando-se nas teorizações de Judith Butler. A pandemia e seus efeitos fecham o livro de Quinet, trazendo suas percepções sobre o negacionismo e o desamparo vividos no

último ano no país.

Outro livro em que podemos encontrar uma variedade de artigos referentes ao tema, é Psicanálise e Política, que tem como organizadores Joel Birman, Isabel Fortes e Mônica Macedo. Além de Daniel Kupperman, Marta Rezende Cardoso, Júlio Vertzman e Leopoldo Fulgêncio, entre outros autores. Os artigos que compõem o livro vão desde, Governabilidade no discurso freudiano, onde amparado em Psicologia das massas e análise do eu (1921), Por que a guerra(1932) e Totem e tabu(1913), Birman vai

analisar a expansão dos discursos da extrema direita, não só no Brasil como no mundo, e seus efeitos na governabilidade. Também estão presentes, temas como: poder e alteridade, a indiferença em relação ao outro nas situações de refúgio e migração, e uma perspectiva winnicottiana sobre os ditadores e os indivíduos antissociais.

Em Com Ferenczi – Clínica, Subjetivação e política, Eliana Schueler Reis e Jô Gondar, tomam Ferenczi como companheiro para reflexões sobre a clínica atual diante das novas formas de subjetivação e as questões do trauma e do analista como testemunha.

Outro livro que também se ocupa do tema, a partir do pensamento de Ferenczi é Ferenczi: Inquietações Clínico-políticas, que tem como organizadores Daniel Kupermann, Jô Gondar e Eugênio Dal Molin. Você encontra uma resenha só sobre ele, aqui no blog.

Essas produções entre outras tantas evidenciam o quanto esses entrelaçamentos entre

psicanálise e política, são possíveis e necessários.


Andréa Mongeló – Psicanalista Associação Psicanalítica Sigmund Freud




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