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  • Foto do escritorJoana C.

Por que ler Marie-Christine Laznik?


Parafraseando novamente a coleção da Editora Zagodoni, podemos pensar as vias

por onde responder à pergunta acima, já que são muitas, considerando as contribuições

extremamente relevantes dessa psicanalista.

Marie – Christine Laznik é um nome referência na psicanálise no mundo todo,

principalmente quando tema gira em torno do desenvolvimento precoce e do autismo.

A psicanalista franco-brasileira morou no Brasil e graduou-se na USP, mas radicou-

se na França em 1972, devido ao período da ditadura militar no Brasil. Na França concluiu

seu doutorado Psicologia Clínica pela Université Paris XIII e analisou-se com Lacan e Joyce MCDougall, ao longo de 20 anos.

Membro da International Lacanian Association, sua prática com bebês

desenvolveu-se na consulta pais-bebês do Centro Alfred Binet por 40 anos. É membro

fundador do RIEPPI - Rede Internacional de Estudos em Psicanálise e Psicopatologia do

Infans que conta com a maioria dos psicanalistas que atendem bebês no Brasil. Suas

pesquisas são referência na clínica com bebês, no nascimento do psiquismo, nos danos

precoces a esse psiquismo e temas do autismo e suas possibilidades de intervenção.

Suas publicações sobre o tema trazem grandes contribuições para pensar a clínica

e o trabalho de clínica, e prevenção, quanto à evolução de quadros de risco perceptíveis

precocemente. A análise de filmes caseiros feitos pelas famílias das crianças, servem de

ponto de partida para pensar sua hipótese de que nesses bebês não houve a instalação do terceiro tempo do circuito pulsional. A direção do trabalho clínico com bebês com quadros de retraimento autístico se dá na direção de o analista, vitalizar pulsionalmente a relação mãe-bebê, proporcionando que a mãe, na sua condição de objeto materno, possa vir a investir libidinalmente na relação com seu bebê.

Aqui mesmo no blog, em um artigo intitulado Autismo e Psicanálise, é possível

encontrar uma referência ao livro de Laznik, A voz da Sereia, o autismo e os impasses na

constituição do sujeito, que reúne vários artigos sobre metapsicologia do infans,

tratamento conjunto Mãe-bebê e conferências e entrevistas com Marie- Christine Laznik.

Outras obras também trazem material muito rico sobre o tema, entre elas com

destaque para três: Distinção clínica e teórica entre autismo e psicose na infância, Rumo

à fala – três crianças autistas em psicanálise e Clínica de bebês – Litoral entre

psicanálises e neurociências. Esse último livro, composto também de outros autores,

apresenta de forma muito elucidativa as articulações da psicanálise com outras áreas de

conhecimento e em especial as neurociências, na prática analítica com bebês de risco de autismo. Para Laznik, não é possível um analista tratar uma criança autista sozinho,

somente em transdisciplinaridade, e seu conceito de litoral ajuda a entender como se dá

esse trabalho. Baseada no conceito de litoral de Lacan, no seminário XVIII, ela fala de um

encontro das águas que respeita o litoral do outro, sem se misturar, motivo inclusive pelo

qual não aderiu a neuropsicanálise. Encontros com a neurobiologia e a osteopatia, por

exemplo, que produzem diálogos e trabalho, sem que os campos se misturem, mas

possibilitando a transdisciplinaridade, fundamental para a clínica do autismo.


Rumo à fala – três crianças autistas em psicanálise nos apresenta o trabalho de

Laznik com três crianças, onde podemos observar a diferença apontada por ela na escuta psicanalítica que “efetua-se no avesso da cura analítica clássica: o objetivo do analista não é interpretar as fantasias de um sujeito do inconsciente já constituído, mas permitir que tal sujeito advenha” (p.21). Diferença significativa que vai operar diretamente na posição do analista, diante dessas crianças e de seus pais.

E o último dos três livros citados Distinção clínica e teórica entre autismo e psicose

na infância, tem como autores além de Laznik dois psiquiatras: Bernard Touati e Claude

Bursztejn. E os três argumentam a existência de ambos quadros, discutindo questões

diagnósticas no sentido de distinguir psicose e autismo, e não os confundir, já que em

psicanálise não existe a referência das classificações americanas de DSM-5. Em psicanálise três grandes estruturas – neurose, psicose e perversão – servem de referência para pensar o funcionamento do sujeito. A partir disso onde situá-lo?


Andréa B. Caldeira Mongeló –Psicanalista membro efetivo da Sigmund Freud Associação Psicanalítica de Porto Alegre







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