• Joana C.

Por que Dolto?

Parafraseando, novamente, o título de uma coleção, relanço a questão – Por que ler Francoise Dolto?


Françoise Dolto, foi pe


diatra e psicanalista francesa. As origens de suas ideias sobre educação familiar e socialização de crianças, a partir de sua prática como pediatra e posteriormente psicanalista de crianças, estão em conexão com a biografia da autora, que enfrentou dificuldades importantes desde a infância em seu âmbito familiar. E isso pode ser encontrado em passagens de algumas de suas inúmeras obras.

Uma delas está no livro A causa das crianças:

“Com oito anos, mudei meu propósito.

-... E você Françoise, o que quer fazer mais tarde?

- Médica de educação.

- O que isso quer dizer?

- Isso quer dizer um médico que sabe que as crianças podem ficar doentes por coisas da educação.” (p.147)


Suas muitas questões na infância, a partir do que observava e vivia em sua própria família parecem ter se atravessado em sua escolha: a medicina da educação. Mas esse nome, pode dar uma ideia errônea de que Dolto pretendia educar crianças, esse não era seu objetivo. Assim como não era observá-las como um objeto de pesquisa.

Depois de sua formação em medicina vai estudar psicanálise com Rene Laforgue que foi seu psicanalista, e desenvolve o talento para a escuta de crianças. Esse era um tempo em que as crianças não eram ouvidas, não recebiam atenção dos adultos, e Dolto apostou no caminho oposto: na palavra e no vocabulário das crianças, mais até do que nas brincadeiras e na interpretação de desenhos, que faziam parte dos tratamentos das crianças da época. “Estar à escuta das crianças” foi a escolha de Dolto.

O livro citado acima, A causa das crianças tem um valor único nesse sentido. É possível acompanhar toda a trajetória de Dolto, desde suas impressões das vivências infantis e as marcas que estas imprimiram na autora, os primeiros contatos com os pacientes e seus pais, até as propostas audaciosas para a época – e quem sabe ainda hoje – como a Maison Verte.

Um dos clássicos da autora Quando os filhos precisam dos pais, é um livro baseado em um programa de rádio francês, na década de 70, em que ela respondia cartas de pais com dificuldades na criação dos seus filhos. O risco de cair em um processo de “dar receitas”, era contornado pela atitude de Dolto, de tentar compreender os motivos e ajudar os pais a olharem para a criança, amparada na psicanálise.

Outro livro clássico de Dolto, é O Caso Dominique, que ganhou nova edição recentemente, tamanha sua importância. Ela transporta o leitor para dentro de seu trabalho analítico, com a transcrição das doze sessões que fizeram parte do tratamento do adolescente Dominique. Acompanhamos também, o lugar que dá aos pais em sua prática, buscando acolhê-los e estabelecer um sentimento de confiança, para que aderissem ao tratamento de seus filhos. É possível perceber o papel ativo, que ela acreditava que deveria ser o do analista, não só de questionar, como também de elucidar conteúdos que no caso de Dominique, eram fundamentais para sua constituição subjetiva e reorganização psíquica.

Françoise Dolto não foi somente uma psicanalista que trouxe contribuições em relação a prática clínica com crianças. Muitos conceitos importantes que se deram em interlocução com conceitos lacanianos são de grande valor à psicanálise. O livro A imagem inconsciente do corpo, nos apresenta uma dessas contribuições. Inicia alertando para a distinção necessária entre imagem do corpo e esquema corporal, e segue por toda a obra mostrando a importância da imagem do corpo, que para ela é inconsciente e que está ligada ao sujeito e sua história. O corpo que a ocupava como médica, não foi abandonado como psicanalista, mas deu lugar ao corpo erógeno, libidinal, e podemos observar isso nesta obra. Um livro mais denso, mas que apresenta conceitos centrais da obra e da clínica de Dolto.

Ao repensar a questão relançada no início desse texto de Por que Dolto? Acredito que esses quatro livros retratem aspectos do seu pensamento psicanalítico e uma teoria clínica muito particular da autora, principalmente na sua época, e isso me parece ser motivo suficiente para estudar Françoise Dolto.


Andréa B C Mongeló, psicanalista, membro da Sigmund Freud associação psicanalítica.





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