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  • Joana C.

Perversões!

Seguindo com nosso espaço de resenhas, reflexões e livros, seque a resenha da psicanalista Andrea Mongelo, sobre o livro PERVERSÕES - desejo do analista em questão, do autor Norton Cezar Dal Follo da Rosa Jr.


Uma das tantas frases de Freud que se tornaram célebres, e são usadas inclusive para dar contorno à uma ideia ou conceito é: A neurose é o negativo da perversão. Utilizada muitas vezes, para definir a perversão no sentido de contrapô-la a neurose, pela ausência de um mecanismo de recalcamento. Através desta definição, Freud aponta que as fantasias dos neuróticos e dos perversos são as mesmas, indo inclusive além, ao afirmar no seu texto Três ensaios sobre a sexualidade infantil que toda criança é dotada de sexualidade, e que esta é perverso polimorfa em seus inícios.


Uma primeira diferenciação que é possível de ser feita, entre uma e outra, neurose e perversão, é sobre a forma de expressão desse desejo e/ou sua interdição. Enquanto o neurótico irá fazer um sintoma, através de uma formação de compromisso entre o desejo e a censura, o caminho do perverso será outro: a encenação desse desejo.


E partindo dessas premissas, o que é possível, e mais do que isso, necessário, pensarmos sobre o tema?


Em seu livro Perversões – o desejo do analista em questão, o autor, ancorado na teoria freudiana e nos postulados lacanianos, reflete sobre questões teóricas e outras diretamente implicadas no exercício da clínica: perversos não buscam análise? Não sofrem? Há transferência na perversão? E qual a sua especificidade? Existe uma relação entre perversão e filiação? A perversão é uma estrutura? Práticas de gozo perverso determinam que exista ali, uma estrutura perversa?


Através de um percorrido que inicia nas cartas de Freud à Fliess, onde se encontram as primeiras formulações sobre a perversão, passando pelo Fetichismo, a primeira teoria de Lacan sobre as perversões e os três tempos de nomeação do pai, temos a sustentação teórica que possibilita o desenvolvimento das discussões posteriores do autor.


Se utilizando de recortes clínicos, mas reiterando a singularidade de cada sintoma e de cada história, o autor vai apresentando o modo como perverso manipula e desorganiza o outro. Ressaltando que esse outro, em uma análise, será o analista. “ A construção de uma demanda(para análise) é proporcional ao desconforto que lhe causa(ao perverso) o fato de suas palavras não atingirem o objetivo de desestabilizar o analista. O perverso desestabiliza-se quando seus atos fracassam em sua busca de desajolar o outro”.


A partir de clássicos atuais da literatura brasileira, como Lavoura Arcaica e também da literatura internacional como: A filosofia na alcova, de Marquês de Sade e Finnegans Wake de James Joyce, o autor analisa através de Lacan o lugar reservado ao pai e ao desejo paterno na perversão.


Mas para além de toda contribuição teórica sobre o tema, que Norton propõem, é quando explora o subtítulo de seu livro o desejo do analista em questão, que ele contribui de forma singular, ao meu ver, para nós psicanalistas pensarmos sobre o desafio da clínica com esses pacientes. Relembrando o papel fundamental da análise do analista, na demarcação e sustentação de seu lugar, e de sua função de relançar a associação livre.


Andréa Mongeló - Psicanalista


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