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  • Joana C.

Perlaboração da contratransferência

Dando continuidade ao nosso projeto "Diálogos com o autor" desta vez a entrevista é com a Dra Lizana Dallazen, autora do livro Perlaboração da contratransferência, confira!


Psicanalista com formação pela Associação Psicanalítica Sigmund Freud, Graduada em Psicologia pela Universidade de Passo Fundo (UFP, 1997), Mestre em Ciências (pelo Programa de pós-graduação em Psicologia Clínica da USP, 2010), Doutora em Psicologia Clínica (com ênfase na linha Intervenções em Psicanálise, pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da USP, 2017), Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisas Sandor Ferenczi, Membro do Laboratório de Pesquisas Psia da USP, Membro do Corpo docente do Instituto de formação em psicoterapia psicanalítica da Clínica Horizontes, Membro convidado de Centro de Estudos Psicanalítico de Porto Alegre (CEPdePA).


Andréa Mongeló – Este livro é fruto de sua tese de doutorado, pode nos contar como foi a delimitação do tema?

Lizana Dallazen - Depois de mais de uma década trabalhando quase exclusivamente com a técnica psicanalítica clássica e obtendo muitos êxitos, comecei a observar uma mudança nas configurações psíquicas dos sujeitos que começaram a me procurar. Eram pacientes com atitudes agressivas contra si e contra outros, com falhas na capacidade de elaborar questões sobre as quais nos debruçávamos nas sessões, raramente sonhavam, atuavam muito suas frustrações e hostilidades através do uso de drogas, álcool ou através de acting in/out. Percebi dificuldades em obter avanços no tratamento com estes pacientes através da técnica que sempre utilizara. Por vezes as interpretações que tinham conteúdo correto não surtiam o efeito esperado e causavam um rebote indesejável nos pacientes que manifestavam incômodo com estas intervenções e, consequentemente atuavam suas fúrias em atitudes violentas na sessão. Em um período relativamente curto de dois anos perdi três pacientes desta mesma forma o que me levou a reconsiderar o meu modo de psicanalisar e tomar consciência da necessidade de dar um salto teórico ampliando os recursos técnicos para atender os pacientes com transtornos narciso identitários. O doutorado veio como a perna teórica de um segundo tempo de formação, onde reconstituí o tripé buscando uma reanálise, uma nova supervisão e os estudos de autores pós-freudianos dentro do universo acadêmico, direcionando assim, esta continuação da minha formação, para os autores que eu considerava necessário me apropriar.


Andréa M. – O tema da contratransferência é, como você comenta em seu livro, um tanto “espinhoso” na psicanálise, quais os motivos para isso, na sua percepção?

Lizana Dallazen - Que bom que você faz esta pergunta. No primeiro ano de doutoramento, participava de eventos aqui no Rio Grande do Sul onde perguntava a conferencistas sobre o que entendiam por perlaboração da contratransferência, já que minha hipótese era de que esta ultrapassava a ideia de Freud de ser a contratransferência apenas falta de análise do analista. Surpreendentemente parecia que não escutavam a minha pergunta sobre PERLABORAÇÃO da contratransferência, respondendo rapidamente que contratransferência é assunto privado do analista e deve ser tratado exclusivamente na análise pessoal, encerrando a minha tentativa de diálogo. Ainda hoje há um temor grande de parte dos nossos colegas em tocar nestes assuntos porque remete diretamente ao tema do narcisismo do analista. É como colocar a mão num vespeiro porque paradoxalmente os analistas têm receio de fazer avançar suas próprias análise aos seus pontos narcísicos como os elementos melancólicos, paranoicos e homossexuais de seu psiquismo e que a análise de seus complexos edípicos já levaria ao cabo seus tratamentos. Com isso, a contratransferência fica como um assunto Tabu. Apesar de ter sido muito explorado no final da década de 40 e durante a década de 50, voltou a um profundo silêncio no século XXI. Assim, consegui um tema que me permitiu permanecer no campo de investigação que toca no tema do superego mas através da pesquisa do narcisismo do analista.


Andréa M.– Você propõe pensar além da obra de Freud, a partir de autores como Ferenczi, Fédida e Bion, entre outros, sobre a contratransferência, e seu uso como recurso nas construções em análise. Quais os ganhos no trabalho da clínica, com essa ampliação?

Lizana Dallazen - Considero que os principais ganhos deste trabalho dizem respeito a dois eixos: enraizar a contratransferência dentro do arcabouço teórico da metapsicologia freudiana, já que após este percurso pelos autores pós-freudianos que se dedicam ao tema fiz um retorno a Freud fazendo trabalhar os termos da Contratransferência (1910), o de Perlaboração (1914) e do Construções em análise de (1937), criando uma metapsicologia freudiana da contratransferência. Entendo que na concepção de Construções em análise (Freud, 1937), ele refere-se a construir sobre o que já está soterrado, ou seja, já conta com inscrições primários. O que indago no meu livro é como construir sobre o que não está representado, sobre os elementos que ficam como enclaves psicóticos no superego dos pacientes pelo excesso de pulsão de morte em seus psiquismos. O que sustento é que aquilo que não está representado no psiquismo do analisando é inoculado dentro do psiquismo do analista para que seja escutado através da contratransferência, já que os sujeitos têm dificuldades para narrar este tipo de afeto que não está inscrito. Esse acréscimo teórico é que nos permite ter o ganho clínico, pois é preciso que o psicanalista tenha em sua mente uma teoria da contratransferência bem alicerçada para ampliar seus recursos técnicos.



Andréa M.– Pensando nesse trabalho de perlaboração da contratransferência, quais são os processos psíquicos envolvidos e os recursos do analista para realizá-lo?

Lizana Dallazen - Então, este foi um ponto consideravelmente importante da minha pesquisa. Quando comecei a estudar os elementos que compõe a metapsicologia do psicanalista, me deparei com a empatia, que pressupõe a capacidade de ir até o outro, sentir dentro de si o que é do outro, ou seja, o tema da sensibilidade do analista. Contudo, a sensibilidade do analista não pode ser usada diretamente porque não passou pelo processo de análise dos conteúdos privados do psicanalista para descondensar os seus complexos dos conteúdos dos quais foi afetado e que dizem e dizem respeito aos conteúdos do analisando. Esse era o ponto de partida mas não é tudo, por isso, entendo que Ferenczi foi o pai da psicanálise contemporânea mas sozinho não dá conta de responder muitas questões. O outro elemento veio através da concepção de identificação projetiva, não como mecanismo defensivo como proposto por Klein, mas na visão desenvolvida por Bion e Rosenfeld, a alucinação e, por fim, o conceito de Rêverie de Bion. Estes elementos operando no psiquismo do analista me permitiram sustentar uma dimensão estética da contratransferência. Para quem quiser entender melhor estes conceitos e os argumentos que desenvolvi sugiro a leitura dos capítulos 6, 7 e 8 do livro A perlaboração da contratransferência, lançado em 2020, pela Editora Blucher.


Andréa M. – Como a escrita do livro, o debruçar-se sobre o tema, repercutiu em sua clínica, na sua escuta como psicanalista?

Lizana Dallazen - Bem, um processo extenso, denso e profundo como este repercute em várias coisas. A primeira delas diz respeito a uma transformação pessoal, que sem dúvida teve efeitos no meus modos de supervisionar, dar seminários e, sobretudo, praticar a psicanálise. Entendo hoje que se os encontros não transformam os sujeitos envolvidos no processo, não há avanço, ganhos terapêuticos. Não é só o paciente que precisa se transformar durante uma sessão de análise. Assim, meu encontro com esta pesquisa e os interlocutores que tive ao longo do meu doutorado, colocaram a própria psicanálise eu um outro lugar dentro de mim, isso fez muita diferença. Foi possível continuar sendo freudiana de um outro modo, sem tantas idealizações teóricas; afrouxando a rigidez que as vezes usamos defensivamente sem perder o rigor teórico. Consequentemente, ampliei significativamente o conhecimento de metapsicologias distintas como a de Klein e Winnicott, o que viabilizou, construir novos modos de psicanalisar. Hoje me vejo uma psicanalista mais benevolente, com menos medo de me entregar a elementos criativos no encontro com o paciente, não tão assustada e culpada com os sentimentos contratransferenciais inerentes ao trabalho. Aprendi que ser neutra e manter vigente a abstinência não pressupõe ser frio, distante e duro com o paciente, há como ser neutro, zelar pelo princípio de abstinência sendo implicado e ao mesmo tempo reservado na transferência, como diria o Luis Cláudio Figueiredo. Sobretudo, meu maior ganho foi resgatar a essência do que significa clinicar, que é tratar, com todos os recursos que tivermos a nossa disposição, o adoecimento psíquico dos sujeitos, ampliando o alcance da psicanálise.


Andrea Mongeló - psicanalista





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