top of page
  • Foto do escritorJoana C.

O olho mais azul, Toni Morrison


Me encontro com o livro de Toni Morrison em meados de 2020, em meio a

uma pandemia, que a mim, com meus privilégios, possibilitou um momento rico de

leituras.


Entre tantas surpresas que o encontro proporcionou, uma delas foi constatar

que a obra foi escrita entre 1962 e 1965, mas poderia ter sido escrita ontem ou hoje

porque seu tema, infelizmente, segue sendo muito atual. A sua atualidade reside no

fato de ser uma estória de como o racismo pode destruir a saúde mental de um ser

humano já na infância, deixando marcas constitutivas que o acompanharão por toda

uma vida. Claro que o racismo não está presente no livro como único fator, ele vem

acompanhado da violência, do abuso, da miséria, do machismo.

Entramos no mundo de Pecola, uma menina cercada da brutalidade que a

pobreza, a discriminação e segregação produzem. Em um dia ela encontra uma caneca com a foto da atriz mirim Shirlei Temple, loira de cachinhos e de olhos azuis.

Imaginando o quanto essa aparência poderia livrá-la das constantes humilhações e

desprezo dos outros ao seu redor, ela decide tomar muito leite nessa caneca, na

tentativa de ficar branca igual a menina estampada nesta. Além disso, passa a rezar

fervorosamente todas as noites para que isso aconteça.

Já na infância ela percebe que carrega em seu corpo a marca da inferioridade

social, e da desumanização, registro que podemos pensar não fica “apenas” social, se

propaga pela imagem que tem e terá de si mesma. Ter a pele branca, olhos azuis e

cabelos loiros cacheados se torna o passaporte para a sua humanidade.

Acompanhamos Pecola ser preterida e maltratada por adultos e por garotos

negros, que, devido ao racismo internalizado e o ódio constante que sentem por seus

próprios corpos negros, são violentos com as meninas de pele retinta, como ela.

Na psicanálise entendemos que o que constitui o sujeito é o olhar do outro. O

narcisismo dos pais/cuidadores investe e constitui a criança. E quando esse outro que

olha, é atravessado pelo ideal da brancura? O que se dá nesse processo? Em seu livro

A cor do Inconsciente, Isildinha Baptista Nogueira (2021) discute o racismo e a

discriminação como fatos sociais, mas que afetam o negro não apenas socialmente,

mas na esfera psíquica. A mancha negra é a marca da imperfeição(...) e o sentido que

porta será sempre o da exclusão.

Uma cena descrita no livro contribuiu para essa reflexão: a mãe de Pecola, em

uma situação difícil que se encontra, decide ficar trabalhando e cuidar da menina loira

da casa em que ela trabalha, em detrimento da própria filha. Existem muitos fatores

implicados nessa decisão, mas me parece difícil não pensar nos efeitos que essa

decisão provoca em Pecola. E em absoluto isso é um julgamento dessa mãe, vamos

descobrir como essa escolha foi sendo formada dentro dela, incluindo as questões

reais de sobrevivência. Além da ideia de amor romântico, desde sempre ela foi

apresentada a outra – à da beleza física. Provavelmente duas ideias muito destrutivas

na história do pensamento humano. Ao igualar beleza física, leia-se brancura, com

virtude essa mãe e foi acumulando desprezo por si mesma. Implícito nesse desejo, por sua cor, sua raça. E como se aprende isso? Pergunta a autora. Tendo a responder com uma hipótese: não é aprendizado, é constituição. O ideal de ego branco atravessa sua constituição, como também nos diz Neusa Santos Souza, em seu livro Tornar-se Negro (1983). Além disso, podemos levantar também, a hipótese do quanto o racismo nos atinge como elemento histórico transgeracional.

No pósfácio Toni Morrison nos faz um alerta: que fiquemos muito atentos,

durante e após a leitura. Tendemos a nos compadecer e ficarmos capturados pelo

sofrimento da personagem e não pensarmos em qual o nosso papel, nosso papel como sujeito e sociedade na reprodução dessas violências: raciais, sociais e de genêro.

Li esse livro antes de ler o Avesso da pele, de Jéferson Tenório, e diria que são

ambos essenciais para nos perguntarmos sobre como o racismo estrutural incide em

todos e deixa marcas desde os primórdios de cada um, tanto negros quanto brancos.


Andréa B C Mongeló – Psicanalista, Sigmund Freud Associação Psicanalítica




9 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
bottom of page