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  • Foto do escritorJoana C.

Esse tão falado Narcisismo


Para além da clínica psicanalítica, vemos o termo narcisismo ser usado com frequência, inclusive entre pessoas leigas, geralmente com uma conotação negativa como egoísmo, ou na definição de “pessoas narcisistas”, seja lá o que isso signifique exatamente. A amplitude do conceito, gera muitas interpretações, inclusive equivocadas, já que todos estamos as voltas com o nosso narcisismo em diferentes momentos da vida.

A construção do conceito é proposto por Freud, utilizando-se do mito grego de Narciso. Esse belo jovem tem um encontro decepcionante com a ninfa Eco, já que esta somente repete as palavras que dele ouve. Ao tomar isso como uma rejeição, ele se recolhe a beira de um lago, e se encanta com a sua própria imagem reproduzida na água. Esse encantamento o seduz, e o leva a ser tragado pelas águas do lago. Apontando entre outras coisas para a sua fragilidade psíquica.

Esse conceito é compreendido e veiculado de diversas formas em psicanálise, desde como pilar na constituição subjetiva, como Freud o concebeu, ou como Lacan, que faz uma releitura desse narcisismo freudiano na sua construção do estádio do espelho. Assim como Green, que também se utilizou desse conceito em seus pressupostos teóricos, em especial na abordagem da melancolia com o narcisismo de vida e o narcisismo de morte, e o narcisismo negativo. E ele também é articulado com outros tanto conceitos muito caros à psicanálise como pulsão, libido, eu e ideal de eu, entre outros. Na obra de Freud o termo aparece em diversos momentos e sob diferentes perspectivas. Em uma primeira vez nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade de 1905, depois como uma fase do desenvolvimento, no Caso Schereber em 1911, e depois em 1914 em Uma Introdução ao Narcisismo com ideias mais estruturadas sobre o tema e a teoria da libido.

A partir da importância desse conceito para a psicanálise, temos muitas obras que

abordam o tema. Duas delas da Climepsi Editores, de Portugal trazem perspectivas

interessantes sobre o tema, além de nos permitir dar uma “olhadinha” no que está se

produzindo em psicanálise no além-mar. Narcisismo, Defesas primitivas e separação de Cristiana Fabão e Narcisismo e Feminilidade de Teresa Flores, são duas dessas obras. E em ambas estão presentes as falhas narcísicas que levam a fragilidade psíquica, que está presente no mito que serve de ilustração ao tema.

No primeiro livro, Cristina Fabão faz uma importante revisão bibliográfica sobre o

narcisismo e o autoerotismo passando por Freud, Winnicott, Bion e Melanie Klein e

reserva a parte final para a discussão de dois casos clínicos. Neles é possível observar

conceitos como barreira de contato de Bion, e o ataque ao vínculo e a onipotência, em

cena na transferência. E ela relembra o quanto é importante que o analista possa, apesar de todo o ataque e desinvestimento, mobilizado na transferência, “seguir vivo e

pensante”.

Teresa Flores em seu Narcisismo e Feminilidade, trabalha a interlocução entre esses dois temas, e como as falhas na narcisização terão efeitos na constituição da feminilidade. Dois casos são apresentados pela autora, onde é possível observarmos os desdobramentos de um trabalho analítico com pacientes com essa falha, que pode estar presente em qualquer estrutura. A autora faz uma aproximação interessante com a histeria, tentando demonstrar o quanto atualmente a mulher tenta “compensar” as falhas narcísicas de formas diferentes das quais Freud observou, na virada do século.

Outro livro que aborda o tema traz em seu título, uma ideia de pluralidade: Narcisismos

de Oscar M. Miguelez, Editora Escuta. O autor escolhe o plural por entender que “Freud agrupa uma variada gama de fenômenos” no conceito. Do seu início ligado as psicoses, sua presença no Complexo de Édipo, na análise da melancolia e também para analisar os fenômenos de massa, levam o autor a usar o plural para abordar o tema. Oscar faz um percorrido bibliográfico bem abrangente, desde as origens do narcisismo, as questões sobre luto e melancolia e a metapsicologia. Dois capítulos nos ajudam a pensar as questões do nosso tempo: uma interlocução de Freud com Hanna Arendt, analisando a questão do mal e o capítulo Narcisismo, religião e cultura, onde levanta suas hipóteses do que se busca para

lidar com o descontentamento e o desamparo.


Andréa B. C. Mongeló – Psicanalista membro efetivo Sigmund Freud Associação

Psicanalítica



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