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Entrevista com Norton C. F. da Rosa Jr.

O psicanalista entrevistado deste mês é membro da APPOA - Associação Psicanalítica de Porto Alegre, Doutor em Psicologia Social e do Institucional pela UFRGS.

Autor do livro Perversões - o desejo do analista em questão (Appris-2019) e

Ensaio sobre pedofilias (Escuta, 2021)


Andréa Mongeló - Seu novo livro Ensaio sobre as pedofilias, faz interlocuções com seu livro anterior Perversões: o analista do desejo em questão?


Norton da Rosa Jr – O livro sobre as pedofilias é uma continuidade das minhas investigações acerca do tema das perversões. Quando escrevi Perversões: o desejo do analista em questão, eu achava importante interrogar as possibilidades dessa clínica e apontar a resistência do campo psi em reconhecer a pertinência dessa prática. Desde aquela época, fazia-se necessário abordar o tema das perversões em sua pluralidade, condição indispensável para considerar a hipótese de que algumas perversões podem ser tratáveis. Cheguei a pensar em escrever um capítulo sobre as pedofilias, mas, depois, considerando a complexidade e delicadeza do tema, considerei que o tema exigia um livro específico.

Nos dois livros há um esforço para interrogar os limites e as possibilidades dessa clínica, assim como, fazer face a certos saberes categóricos instituídos nesse campo. Há muitas verdades e preconceitos em relação ao tema das perversões e, infelizmente, poucas pesquisas e publicações. Creio que a experiência clínica com as perversões pode trazer contribuições para a formação dos psicanalistas, assim como, possibilitar escuta para aqueles que demandam.

A.M. – Como é possível pensarmos a questão da transferência nas pedofilias?


N. R. - Toda hipótese diagnóstica em psicanálise é suposta a partir da transferência, ou seja, se dá através do lugar que o analisante situa o analista no discurso. Isso implica reconhecer algum saber nesse outro acerca de seu mal-estar. De modo geral, essa lógica, estrutura a economia subjetiva neurótica. Em se tratando das perversões, essa questão é mais complexa, pois o perverso sustenta deter um saber sobre como fazer o outro gozar, ou seja, ele acredita saber como tamponar a falta no Outro. Como diz Lacan, ao desmentir a castração, ele “se faz instrumento do gozo do Outro”. Essa particularidade subjetiva situa alguns desafios para o estabelecimento da transferência.

As pedofilias, do ponto de vista psicanalítico, fazem parte das estruturas perversas. Nesse sentido, a ideia de “definição” se dá mediante as hipóteses que o analista formula a partir daquilo que lhe é endereçado na transferência. Diferente do clássico abusador, que agride, violenta e arromba, geralmente, os pedófilos recusam a possibilidade de se reconhecerem como violentos, na verdade se julgam como amigos, amorosos, dignos de uma relação afetiva, conquistada por gestos de confiança. Essa forma de seduzir joga a criança num certo embaraço para entender o que está se passando, deixando-a com dificuldades de reconhecer esses atos como agressão. Entrar na intimidade da criança sem que ela sinta isso como uma violência, faz parte das manobras de alguns pedófilos para fascinar o infans.

Outro aspecto do discurso de um pedófilo é a fixação ao corpo infantil como objeto de fascino e gozo. Tomar o outro como objeto, instrumentalizando-o, chega a tal ponto de qualquer gesto de afeto, insegurança, desamparo, ou até mesmo, timidez por parte da criança, ser interpretado como um apelo sexual pelo pedófilo, pois ele irá erotizar tudo que diz respeito ao universo infantil. Desse modo, na pedofilia, em nenhum momento há o reconhecimento da dissimetria de lugares, da diferença geracional, ou ainda, que a criança não pode consentir diante de algo que ela não tem a compreensão, tampouco a representação do ato em questão.

Na pedofilia, há uma espécie de captura pela suposta condição angelical que encarnaria o corpo infantil. Esse fascínio pela inocência materializada no infans, transforma-se no imperativo categórico de colonizar o corpo da criança com a insígnia do sexo. O pedófilo goza pela possibilidade de ser o iniciador de uma criança no universo sexual. Entretanto, essa representação de pureza e inocência encarnada, rapidamente, dependendo das circunstâncias, pode se tornar diabólica. Como isso ocorre? Quando o pedófilo é pego em crime, ele tende a se desresponsabilizar pelo seu ato, colocando-se muitas vezes no lugar de “vítima” pela “sedução diabólica” de certas crianças.

É comum a suspeita de que alguém atormentado pela a ideia fixa de ter relacionamento sexual com uma criança, encontra-se na eminência de passar ao ato, ou de que em algum momento fará isso. Entretanto, é preciso fazer a ressalva, nem todo pedófilo será necessariamente um abusador, ou seja, cometerá o crime de abusar de uma criança. Assim como, nem todo abusador é pedófilo. O fato de reconhecer a dimensão patológica da pedofilia é importante, o que não significa, de forma alguma, minimizar a responsabilidade criminal do pedófilo pelos seus atos. Por isso, torna-se imprescindível diferenciar a fantasia do ato, tanto pela diferença do dano e do impacto social disso quanto pela incidência psíquica da distinção e prevalência dos registros em jogo, o imaginário e o real.

Nesse sentido, se de um lado é fundamental a responsabilização pelo ato; de outro, cabe aos profissionais da área psi não culpabilizar o indivíduo por suas fantasias, pois qualquer indício de culpabilização pelo desejo em jogo, juízo moral ou estigmatização, pode inviabilizar a possibilidade de tratamento. Ou seja, nesses casos, o sujeito precisa supor que há alguém em condições de lhe ajudar a fazer a distinção entre a fantasia e o ato. Mesmo porque, a fantasia pedófila, embora possa ser moralmente condenável, não é crime. Esse ocorre quando o pedófilo abusa da criança.

Essa distinção das diferentes formas de pedofilias é fundamental. No meu livro, considero a possibilidade de tratar algumas pedofilias, especialmente, aquelas que o sujeito reconhece alguma dimensão de mal-estar com as suas fantasias a ponto de se culpar com o possível dano causado no outro. Nesses casos, há o reconhecimento de um sujeito no campo do outro, há inclusive certa dimensão de reconhecimento de imoralidade, ou até mesmo, de pecado, caso ele atue a sua fantasia e cometa um crime. Nesses casos, penso que há possibilidades de tratamento.


A. M. – Na sua percepção, porque não existe um maior interesse em estudar o tema das pedofilias, por parte dos psicanalistas? Seu livro também tem essa proposta, de abrir reflexões sobre o tema?

N. R. - Certamente, o tema das perversões não é tão estudado como as psicoses, e, tampouco, como as perversões. De certo modo, isso é compreensível, pois a psicanálise surge a partir do desejo de escuta de Freud sobre o saber em jogo no mal-estar histérico. Depois, passaram-se algumas décadas para outros psicanalistas, como por exemplo, Jacques Lacan, reconhecesse o desejo de escuta em relação as psicoses. Talvez, estejamos no momento de sermos destemidos em relação as perversões. Trata-se de uma clínica que precisa ser escrita. Para isso ocorrer, faz-se necessário reconhecer a nossa ignorância em relação ao tema, colocando-nos no campo de experiência e seguindo os impasses e desafios da pesquisa. Essas são as condições mínimas para movimentar as coisas e pensar os limites e as possibilidades dessa prática.

Portanto, trata-se ainda de algo muito inicial na psicanálise, haja vista a carência de eventos, publicações e a falta de interesse em debater o tema. No entanto, pesquisando essas questões a quase vinte anos, posso dizer com segurança que a falta de interesse nesse universo é uma realidade eminentemente brasileira. Na França, na Argentina, nos E.U.A e em diversos outros países, o cenário é muito diferente, pois o número de publicações e eventos é incomparável com o nosso contexto. Por que será? Por que os profissionais brasileiros se interessam pouco pelo tema? Teria alguma relação com a nossa cultura e/ou formação? Cabe problematizar essas questões.

Realmente acredito que o meu livro cumpre a função de abrir esse debate. Tenho recebido esse retorno tanto de colegas brasileiros quanto de psicanalistas de outros países.


A. M. - Qual livro está lendo no momento, e qual foi marcante para a sua clínica?

N.R. - Estou relendo a peça Hamlet, de Shakespeare. Estou mergulhado nessa leitura em função de um novo livro que estou escrevendo. Quanto ao livro marcante na clínica: A interpretação dos sonhos, de Sigmund Freud e o seminário O desejo e sua interpretação, de Jacques Lacan.






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