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  • Joana C.

Entrevista com Marion Minerbo


Marion Minerbo é membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de psicanálise de São Paulo (SBPSP) e doutora pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). É autora dos livros:

Diálogos sobre a clínica psicanalítica (Blucher, 2016),

Novos diálogos sobre a clínica psicanalítica (Blucher, 2019),

Neurose e Não neurose (Blucher, 2019),

A Posteriori, um percurso (2020),

Transferência e contratransferência (Blucher, 2020).

Em 2017, iniciou o blog Loucuras Cotidianas, onde escreve crônicas psicanalíticas sobre os mais variados temas.


Andréa Mongeló - Tanto o seu blog Loucuras Cotidianas, quanto os dois volumes Diálogos sobre a clínica psicanalítica, têm o formato de interlocução. Quais são os ganhos na transmissão da psicanálise que se obtém a partir desse modelo?


Marion Minerbo - Tropecei neste formato um pouco por acaso. Escrevi um texto em forma de diálogo meio de brincadeira, e uma amiga minha, editora, me disse que era “um achado”. Foi só então que me dei conta do potencial. Comecei escrevendo a um jovem colega genérico. AnaLisa nasceu poucos anos mais tarde, com o blog. Quando pensei em batizá-la, tinha que ser mulher, como 80% dos psis, e só podia ser AnaLisa, anagrama de análise. E aí eu já estava bastante à vontade.

Acho que o gênero funcionou porque eu realmente tenho o/a jovem colega em mente quando escrevo. Não escrevo para meus pares, que estão lendo autores estrangeiros; nem para uma banca examinadora, a quem eu teria que provar alguma coisa. Escrevo para um jovem colega inteligente, interessado, criativo, com senso crítico (será que é meu alter ego rsrsrs?). AnaLisa faz análise, supervisão, estuda, atende seus pacientes e se debate com questões teórico-clínicas. Ela é simpática, bem-humorada e não tem problema em dizer que não entendeu. Por tudo isso, é fácil o leitor se identificar com ela.

Com tantos anos de convivência, conheço bem as dificuldades, assim como os mal-entendidos mais comuns. Sei também que em muitos casos o mais difícil é formular as questões. Pensando bem, talvez seja isso o que mais funciona nesse modelo: eu ajudo o jovem colega a formular questões. São elas que vão lhe mostrar como, e por quê, os conceitos são necessários e úteis na clínica. Ah, outro ingrediente importante é que escrevo com amor, empatia, rigor e clareza.


Andréa Mongeló - Em seu livro Neurose e Não neurose você afirma que uma ausência da noção de psicopatologia, pode provocar uma dupla dissociação entre clínica e teoria. Que dupla dissociação é essa, e quais seus efeitos na clínica?

Marion Minerbo - As pessoas estudam, sabem a teoria, mas tem dificuldade em usá-la na clínica para escutar os pacientes. Por exemplo. Estuda-se, com Winnicott, um tipo de enrosco da criança com seu objeto primário. A teoria se situa num nível universal. Aí vem o paciente – passamos para a singularidade – e, sessão após sessão, conta como odeia o seu cônjuge, mas não consegue se separar. É como se a teoria sobre o enrosco primitivo não tivesse nada a ver com o enrosco conjugal. O terapeuta deixa tudo o que estudou sobre Winnicott de lado, e conversa com o paciente sobre a briga de casal exclusivamente no nível do conteúdo manifesto. A briga de casal não remete a nada para além dela mesma. A clínica está dissociada da teoria. E vice-versa. O terapeuta não consegue reconhecer, no discurso do paciente – estamos no plano da singularidade – tudo o que estudou nos livros. Ele sabe perfeitamente a teoria de Winnicott, que aborda, no nível universal, um tipo de enrosco entre a criança e seu objeto primário. Mas ela não ganha vida na briga de casal. Em vez de estar a serviço da clínica, ela permanece como letra morta, como conhecimento meramente intelectual. Ou seja, o terapeuta não consegue usar a teoria para ajudá-lo a entender, e a trabalhar, com o sofrimento psíquico do seu paciente que está no enrosco conjugal. Ela está dissociada da clínica. Resumo da ópera: a teoria só se torna viva quando encarnada na clínica; e a clínica só ganha coerência e inteligibilidade à luz da teoria. A psicopatologia psicanalítica (que não tem nada a ver com a psiquiátrica) permite ao analista articular o universal da teoria com o singular da sua clínica, fazendo o trânsito nas duas direções. Obrigada por ter feito esta pergunta, me ajudou a elaborar melhor essa ideia!

Andréa Mongeló- No seu livro A posteriori, um percurso você retoma o tema do pensamento que clínico, no qual já havia se debruçado em obras anteriores, e é um conceito muito caro para André Green, por exemplo. Esse tema está relacionado com a dupla dicotomia que falava anteriormente?

Marion Minerbo - Exatamente. Pensar clinicamente é elaborar uma (micro)compreensão teórica a partir da clínica, e ao mesmo tempo, fazer com que essa compreensão teórica ajude a conduzir o trabalho clínico. Nos meus textos, procuro mostrar como pensa um psicanalista; nesse sentido, eles são (tentam ser) pensamento clínico em ato.


Andréa Mongeló - Qual o papel da escrita na formação de um analista, na sua opinião?

Marion Minerbo - Para escrever é preciso ter o que dizer, o que supõe um tempo e um espaço para pensar sobre o que se pratica. Além disso, é preciso organizar as ideias, o que ajuda a perceber o que se sabe e o que não se sabe. Escrever supõe também a interlocução com outros autores. Espera-se que, lendo e escrevendo, o analista em formação descubra quais ideias fazem sentido na sua clínica, e quais não fazem. Fabio Herrmann dizia: “quem não cria, crê”. É um elogio da escrita como instrumento para desenvolver um pensamento crítico, em oposição a seguir mestres e repetir chavões. Por tudo isso, escrever é útil na formação de um analista.

Posto isso, há bons analistas que não escrevem. E analistas que escrevem bem, mas não têm uma boa escuta/sensibilidade clínica. No meu caso, escrever ajuda a organizar as ideias. Mais do que isso: só consigo pensar e produzir escrevendo.


Andréa Mongeló - Pode nos contar o livro que está lendo atualmente e um marcante para sua clínica?

Marion Minerbo - Acabei de ler Métaphysique des tubes, de Amélie Nothomb. É uma obra de autoficção escrita na voz da criança que ela foi entre zero e três anos. O livro me interessou porque tenho escrito textos de “ficção baseada em fatos reais”, nos quais uma criança de três anos descreve o ambiente emocional no qual está se constituindo. Meu objetivo é dar vida ao sofrimento psíquico em estado nascente mostrando sua relação com a criança-no-adulto.

Mas como hoje em dia a gente lê também com os ouvidos, durante minhas caminhadas escuto o podcast Imposturas Filosóficas. Dois jovens filósofos, Rafael Lauro e Rafael Trindade, discutem textos, temas e autores de maneira profunda e acessível para quem, como eu, nunca estudou filosofia. Recomendo o episódio #124, Política no fim do mundo. É uma análise das novas formas de organização política e econômica que já estão aí, acontecendo à margem do sistema, indicando um caminho alternativo aos grandes projetos da modernidade que caducaram.

Um livro marcante para a minha clínica foi Agonie, clivage et symbolization, do René Roussillon. Vários capítulos estão traduzidos.


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