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  • Foto do escritorJoana C.

Entre mães e filhas


Muitas aproximações e enlaces entre psicanálise e literatura podem ser feitas.

O que a psicanálise pode dizer sobre a literatura, seus personagens? E como a literatura pode abrir possibilidades para pensarmos questões da clínica?

Um tema bastante explorado tanto na literatura quanto no cinema, de forma

ficcional ou autobiográfica, é o da relação mãe e filha. Até mesmo desenhos animados

mais contemporâneos da Disney/Pixar como Enrolados e Valente tratam do tema, por

diferentes perspectivas. Essas e outras tantas obras, colocam luz em sentimentos que

muitas vezes temos tendência a esconder, através de um olhar idealizado dessa relação.

Em termos de literatura temos diversas autoras contemporâneas se dedicando ao

tema, tanto em obras ficcionais, quanto técnicas, ênfase que faço aqui na psicanálise.

Destaco algumas delas.

No campo da literatura estrangeira, Elena Ferrante, em Um amor incômodo, Amiga

genial e A filha perdida, aborda o tema das relações mãe-filha e todo o universo de

sentimentos, alguns muito difíceis, que fazem parte desta.

Eliane Brum, em Uma Duas, nos apresenta de forma brilhante, a tentativa de

transformar em palavra a história de uma relação mãe-filha, marcada por verdades

impossíveis de serem ditas e um rompimento assinalado na carne.

A filha primitiva, livro de estreia de Vanessa Passos, traz a narrativa de uma

história nunca contada e seus efeitos na relação entre mãe, filha e neta. A força, a

violência, a maternidade e o desejo – pela maternidade, ou não – estão presentes de

forma nua, crua, humana.

As obras citadas acima, são fonte para pensarmos diversos aspectos da relação

mãe-filha, através da psicanálise, que tem no texto Feminilidade (1931) de Freud, seu

destaque.

Para ele, a mãe será definida como Outro onipotente ao qual a menina inevitavelmente ligada em sua pré-história. Os conceitos de complexo de édipo e castração, assim como os estudos da constituição psíquica do sujeito atravessam todas as possíveis reflexões sobre o tema, ou são a base teórica para se pensar o mesmo. Mas é na especificidade do texto de 1931, que Freud apresenta de forma mais elaborada suas ideias. Ele vai traçando comparações entre características físicas e psíquicas de meninos e meninas, e naquele momento, encontra no complexo de castração o marco da diferença que aponta para o caminho da feminilidade. E friso naquele momento, pois podemos enriquecer o tema hoje, com outros autores que vem pensando as questões do feminino e de gênero.

Atualmente, três obras técnicas e com viés psicanalítico, abordam de perspectivas

diferentes esse mesmo tema da relação mãe-filha.


Em Histórias de captura, Ana Cláudia Meira faz um enlace com a obra de Eliane

Brum, citada acima, para falar de relações onde a filha é capturada por uma trama que a impede de se constituir de forma independente e autônoma da mãe. Embasada por

conceitos freudianos que sustentam e dão consistência ao livro, a autora nos apresenta uma escrita sensível, numa leitura que flui.

Malvine Zalcberg, em De menina a mulher é uma leitura muito gostosa de ser feita,

mesmo que alguns capítulos tratem de temas um tanto pesados. A autora se utiliza de

enredos de filmes - autobiográficos ou não - para transitar sobre as questões que

envolvem a relação mãe e filha e a construção da identidade feminina. Como se dá a

estruturação psíquica feminina, a criação de uma identidade singular, que como dizia

Simone de Beauvoir: não se nasce, mas torna-se mulher. E é através da relação com a

mãe, e de como esta lida com a sua feminilidade que virão os recursos psíquicos para a menina fazer esse processo.

Para encerrar trago um autor que tem uma obra muito interessante sobre o tema:

As filhas e suas Mães, de Aldo Naouri. Pediatra francês, Naouri dedicou-se as relações

interfamiliares, escrevendo diversos livros sobre o tema. Esse citado acima é resultado das muitas mães e filhas que recebeu e acompanhou como pediatra. Por seu percurso em análise, passou a ter esse acréscimo no olhar das crianças e suas famílias que passavam em seu consultório. Através de sua experiência clínica, traz relatos de experiências e suas reflexões sobre essa relação e “o poder que, a despeito do tempo que passa, as mães conservam sobre suas filhas, interferindo assim sobre toda a vida delas”.

São aspectos diferentes, retratados nas diversas obras citadas, que apontam para o

quanto essa relação é delicada, complexa e peculiar.


Andréa B. Caldeira Mongeló – Psicanalista Sigmund Freud Associação Psicanalítica



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