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  • Joana C.

"Diálogos com o autor"

Iniciamos o projeto “Diálogos com o autor” com o objetivo de mostrar um pouco mais aos leitores do blog as ideias e opiniões de alguns autores do acervo da Baobá.

Com muita satisfação, nosso primeiro convidado é o psicanalista Luis Claudio Figueiredo.


Luis Claudio Figueiredo é Psicanalista do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro, possui graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1974), mestrado em Psicologia (Psicologia Experimental) pela Universidade de São Paulo (1976), doutorado em Psicologia (Psicologia Experimental) pela Universidade de São Paulo (1979) e Livre Docência em Psicologia pela USP (1992). Atualmente é professor doutor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professor Associado da Universidade de São Paulo (aposentado).

Com vários artigos e livros publicados, entre eles: Psicanálise Elementos para a clínica contemporânea, As diversas faces do cuidar. Novos ensaios de Psicanálise Contemporânea e recentemente, Adoecimentos Psíquicos e Estratégias de Cura, em co-autoria com Nelson E. Coelho Júnior. Nos conta, também, sobre seu mais novo livro, que deve sair ainda esse semestre.

Boa leitura!


Andréa Mongeló - No livro Adoecimentos psíquicos e estratégias de cura, vemos abordada a importância da articulação entre a matriz freudo-kleinianas e a matriz ferencziana para a psicanálise contemporânea. Pode nos dizer do papel da clínica, nas articulações propostas no livro?

Luis Claudio Figueiredo - A matriz freudo-kleiniana pertence ao tronco original da psicanálise. A matriz ferencziana (e isso não abarca toda a obra de Sándor Ferenczi) deve ser entendida como uma matriz suplementar, inicialmente, devotada e alguns atendimentos muito difíceis com pacientes precocemente traumatizados e com partes mortas, apassivados. Na matriz freudo-kleiniana aprendemos reconhecer e trabalhar analiticamente com as angústias, reações do vivo contra as ameaças. Com a matriz ferencziana aprendemos a reconhecer e trabalhar com as agonias, movimentos psíquicos de moribundos.

Hoje encontramos na clínica analisandos que nos mostram aspectos de seu funcionamento psíquico semimortos, inertes, entediados e apassivados, embora continuem vivos e até mesmo muito agitados. Na verdade, essa mistura de pacientes vivos e angustiados (às vezes super-angustiados) e pacientes semimortos e agonizantes foi, no meu entender, se tornando dominante. Uma boa formação, a meu ver, deveria criar psicanalistas capazes de escutar angústias e agonias, e diferenciá-las.


Andréa Mongeló - E como pensa o manejo desses pacientes, e conceitos como elasticidade e limites, na modalidade online presente na clínica, durante o período da pandemia?

Luis Cláudio Figueiredo - Há muitas questões condensadas nessa curta pergunta. Penso que teria de ir respondendo aos poucos. De toda sorte, sobre os atendimentos remotos escrevi um trabalho que foi publicado em agosto nos CADERNOS DE PSICANÁLISE DO CPRJ. Sugiro a leitura desse artigo (é fácil acessar pela internet)


Andréa Mongeló - Em um capítulo intitulado O paciente sem esperança e a recusa da utopia, em seu livro Psicanálise – Elementos para a clínica contemporânea, o senhor aponta para “a relação entre o colapso da utopia no plano social e a constituição de subjetividades que se caracterizam pela capacidade de sobreviverem à morte da esperança e se conservarem sem ela”. Nada mais atual nos tempos que vivemos. Pode nos falar um pouco sobre isso?

Luis Cláudio Figueiredo - Além de ser um tema oportuno em 2021, fui levado a pensar sobre esses casos a partir de atendimentos que fazia há muitas décadas. O texto é de 2003, mas reflete experiências muito anteriores, principalmente com pacientes borderline e com problemas narcísicos muito acentuados. Neles via uma deficiência na capacidade de esperar e ‘esperançar’.

Sempre estive muito ligado ao contexto cultural e político dos adoecimentos psíquicos, certamente por conta das minhas experiências pessoais como militante e exilado. Mas acho que o mundo foi se tornando para muita gente um lugar de sofrimento ‘pouco interessante’. Um fundo depressivo foi se disseminando e a ele tenta-se contrapor o recurso a defesas maníacas, superexcitação, muita agitação etc. A isso dediquei meu livro Psicanálise: Caminhos no Mundo em Transformação, de 2018 (Editora Escuta). Para quem achou interessante esse capítulo do livro de 2003, sugiro a leitura do livro recente em que falo mais das defesas maníacas que encobrem e, ao mesmo tempo, revelam o fundo depressivo e a falta de verdadeira esperança.

Andréa Mongeló - Após tantas obras, artigos e produções, nos conte um pouco sobre como iniciou seu processo de escrita em psicanálise?

Luis Cláudio Figueiredo: Como todo mundo, encantado e perplexo. Encantado com a riqueza do nosso trabalho, perplexo com sua complexidade. Não me canso de clinicar, de pensar sobre minha prática e sobre seu objeto, o inconsciente, de estudar. Escrever, para mim, é a decorrência natural e direta de meu entusiasmo e de minhas dúvidas. Aproveito as férias, principalmente essas férias restritas dos tempos da pandemia, para escrever. Estou terminando a escrita de um livro – A MENTE DO ANALISTA – que deve ser publicado pela editora Escuta ainda esse semestre (aliás, um dos capítulos do livro será justamente sobre a mente do analista nos atendimentos).

Espero vocês lá...






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