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  • Joana C.

Diálogos com Marta Rezende Cardoso

Atualizado: Out 2

Marta Rezende Cardoso possui graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1978), Mestrado em Psicologia (Psicologia Clínica) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1990) e Doutorado em Psychopathologie Fondamentale et Psychanalyse - Universite de Paris 7 - Denis Diderot (1995). É PROFESSORA TITULAR da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Programa de Pós Graduação em Teoria Psicanalítica e Departamento de Psicologia Clínica).

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Andrea Mongeló 1.Do seu lugar na academia, de autora e organizadora de várias obras, e também como psicanalista como vê o papel da escrita na formação de um analista?

Marta R. Cardoso. Creio que a escrita possibilita o aprofundamento de reflexões teóricas, propiciando maior sistematização delas, sabendo-se que a teoria permanece sempre aberta à re-significação, ao novo. Sua construção se dá a partir de um movimento em espiral, inesgotável, numa temporalidade complexa envolvendo passado, presente e futuro simultaneamente. Em primeiro lugar, vale sublinhar o exercício da criatividade própria à escrita no processo de formação e realização do trabalho clínico psicanalítico. É pela via do criar, do figurar, que se desenvolve a capacidade de escuta, demandante, ela também, de atenção flutuante. Se pensarmos, por exemplo, na atividade de pesquisa, na modalidade particular de escrita que lhe é peculiar, que ela se dê no espaço acadêmico ou em outros espaços de formação e de discussão, constatamos como é sempre movida, de forma direta ou indireta, por interrogações trazidas pela clínica, estando, portanto, ao seu serviço. Assim foi construída a obra de Freud, processo que assim se mantém, posto que parte intrínseca do método psicanalítico. Trata-se de uma só vez, de um método clínico e de um modelo de compreensão do funcionamento psíquico, com seus múltiplos destinos, sempre se considerando a singularidade do sujeito, tendo como meta central a qualidade da clínica a qual, por sua vez, pressupõe a presença de uma base teórica suficientemente consistente.


Andrea M 2 - O seu livro Superego, é resultado de sua tese de doutorado em Psicopatologia fundamental e Psicanálise, na França, na universidade de Paris VII. Qual a relevância do conceito de superego para a psicanálise e na clínica atual?

Marta R. C. O conceito de superego possui especial relevo na metapsicologia, de forma geral. Sendo uma das instâncias do aparelho psíquico - de acordo com a chamada Segunda Tópica - constitui elemento fundamental da teoria psicanalítica, com estatuto estrutural em sua trama de conceitos. Quero com isso sinalizar que é difícil estabelecer um recorte temporal, concedendo suposto valor maior a esse conceito a respeito de um determinado momento da história da clínica. Uma análise do funcionamento do superego na sua relação com as outras instâncias psíquicas é incontornável para a compreensão de qualquer situação clínica. Porém, como mostrei na minha tese de doutorado (e livro) é importante acompanhar como a trilha genealógica do conceito de superego em Freud se entrecruza com a da emergência da pulsão morte. Esta, por sua vez, teve sua construção teórica “exigida” por quadros

clínicos marcados pela violência psíquica, tais como a paranóia, a melancolia, as formas graves de neurose obsessiva, patologias narcísicas. A trilha genealógica do superego é coincidente com essa; na verdade se trata de uma mesma trilha. Ora, hoje nos encontramos num contexto marcado pela “clínica do trauma” ou, mais precisamente, pela incidência significativa de situações, digamos, fronteiriças, de

base traumática, em suma, por sofrimentos identitário-narcísicos, conforme a acertada expressão de René Roussillon. Toda a questão do narcisisimo e da identificação está situada no cerne das configurações subjetivas atuais, que convocam, de modo imperativo, uma depurada análise da problemática do superego. Nesse sentido, penso que se pode, sim, destacar a importância de uma apreciação deste conceito levando-se em conta a expressão particular que possui na atualidade da clínica psicanalítica.


Andrea M. 3 - O livro Adolescentes que tem sua organização, e alguns artigos de sua autoria, faz um percorrido sobre vários temas como a solidão e o desamparo na adolescência, passagens ao ato, como a drogadição e as patologias alimentares. Muitos deles trazem um material clínico que enriquece ainda mais a abordagem do tema. Por que a adolescência nos convoca tanto como sujeitos e psicanalistas?

Marta R. C. Na travessia da adolescência os elementos próprios ao infantil são re-significados, particularmente aqueles concernentes às fantasias inconscientes. A entrada na puberdade, como fenômeno biológico, incide diretamente sobre o plano da sexualidade cujo estatuto tem valor determinante na constituição da vida psíquica. A puberdade se dá no plano do corpo biológico, consolidando no indivíduo a sua

posição sexual apta a partir de então à realização do ato sexual propriamente dito e também da reprodução. Interessante notar que quando o fenômeno biológico da puberdade emerge o sexual pulsional já está presente e isso desde os primórdios do psiquismo, constituindo, em sua polaridade com a dimensão pulsional da autoconservação o solo da subjetividade humana. A adolescência, pelo remanejamento que exige, em suas múltiplas vertentes, pode ser considerada, em si mesma, traumática, exigindo do psiquismo especial trabalho psíquico. Porém trata-se, no caso, de um traumático inescapável, ou seja, de caráter constitutivo, sendo inerente à travessia da adolescência. Para sua compreensão, não se pode limitá-la a uma etapa cronológica já que constitui uma efetiva problemática, uma experiência subjetiva. Em certos sujeitos, no entanto, essa violência, que, conforme pontuei acima, lhe é inerente, pode apresentar uma dimensão desestruturante. Lembremo-nos que as fantasias infantis, primárias e edipianas, o recalcado e o clivado tendem a retornar com particular força no decorrer dessa experiência, marcada igualmente por perdas absolutamente fundamentais, o psiquismo devendo a tudo isso se confrontar. A importância dessa travessia, o adolescer, me parece comparável a do infantil, com efetivo valor de determinação nos destinos da vida psíquica. Não por acaso tantas patologias têm seu desencadeamento precisamente ao longo dessa travessia.


Andrea M. 4 - Pode nos contar o livro que está lendo atualmente, e um livro marcante para a sua clínica?

Marta R. C. Estou relendo alguns livros de Arthur Schnitzler, autor vienense, contemporâneo de Freud. Sua obra exala intensa sensibilidade à potência e aos limites do humano. No momento, estou focada em “Madame Béate et son fils”, curto romance de sua autoria onde é abordada, de maneira genial e instigante, a questão do sexual na adolescência, com seu caráter traumático com sua violenta repercussão na subjetividade das figuras parentais.

Um livro recente de Luís Claudio Figueiredo – “A mente do analista”, publicado neste ano pela editora Escuta, oferece rico material e forte inspiração para a clínica.



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