Buscar
  • Joana C.

Diálogos com a autora Sissi Castiel

Nossa convidada do mês no “Diálogos com o autor” é Sissi Vigil Castiel, Psicanalista, Presidente da Sigmund Freud Associação Psicanalítica, doutora pela Universidade Autônoma de Madri, autora do livro Sublimação: clínica e metapsicologia (2007) São Paulo, pela editora Escuta, e Narcisismo, pulsões e sexualidade: repercussões clínicas (2019), São Paulo, Escuta. Além desses, é autora de vários artigos e capítulos de livros. Que tenham uma boa leitura.


Andréa Mongeló – Seus livros Sublimação: Clínica e metapsicologia e Narcisismo, pulsões e sexualidade: repercussões clínicas, se articulam entre si? O segundo apresenta desdobramentos do que você investigou e trabalhou no primeiro?

Sissi Castiel - Sim, ambos têm uma relação de continuidade, na medida em que o primeiro teve como premissa desenvolver o conceito de sublimação desde a perspectiva (presente em Freud) do processo psíquico através do qual é possível a criação e a simbolização. Partia da ideia que definir a sublimação como o afastamento do sexual e sinônimo de realizações socialmente valorizadas é uma redução do conceito. Já a possiblidade de pensá-la como a transformação da sexualidade em realizações simbólicas no campo da cultura permite aberturas. Quer dizer que a sublimação seria o destino pulsional através do qual seria possível criar percursos alternativos de satisfação no campo alteridade, ainda que isto não signifique satisfação absoluta. A sublimação não teria que ver com um distanciamento da sexualidade e sim que a sexualidade que está em questão na sublimação não é a manifesta nem a recalcada é aquela que permite criações como forma alternativa de satisfação, mesmo que não seja diretamente sexual e implica na manutenção de uma posição desejante.

O segundo livro parte da reflexão sobre as implicações da segunda dualidade pulsional para os processos de ligação das pulsões a representações e objetos em detrimento do desligamento. A ligação é um progresso para o psiquismo, Eros domina a vida psíquica os processos de ligação e simbolização podem ocorrer e entre eles encontra-se a sublimação. Em contraposição, quando a pulsão de morte e o desligamento dominam, as intensidades psíquicas não podem ser reguladas e isto traz consequências para o processo de subjetivação, para o narcisismo e para as instâncias psíquicas.


Andréa Mongeló - Qual a relevância e/ou lugar do conceito de sublimação na psicanálise e na clínica psicanalítica atual?

Sissi Castiel - Entendo que a relevância da sublimação para a clínica está na razão direta da forma como ambas são conceituadas. Se o entendimento da sublimação é o de um sinônimo de arte, ela não traz contribuições à clínica. No entanto, se entendemos que o sujeito vem a análise porque sofre e por isso quer transformar-se, está em questão a dimensão terapêutica da análise. Entendo que importa para a clínica o destino pulsional que possibilita simbolizações, ligações. Assim, diante da verdade de seu desejo, a direção da cura estaria relacionada a romper com repetições para poder criar percursos alternativos de satisfação no campo da cultura e da alteridade, de forma a contemplar uma existência mais inventiva. Esta para mim seria a participação da sublimação na análise.


Andréa Mongeló Em tempos pandêmicos, de distanciamento social, com a morte se fazendo presente, qual a importância e/ou função da arte na economia psíquica do sujeito, levando em conta o processo de sublimação como movimento da vida contra o mortífero?

Sissi Castiel - Entendo que a sublimação recobre um campo intermediário, assim como a arte, são formas de simbolização. Ambas podem se apresentar como alternativas possíveis diante do trauma. As pessoas não reagem da mesma maneira diante de uma situação traumática e quando podem criar soluções individuais ou coletivas para seguir vivendo, significa que estão tramitando psiquicamente com o que lhes acontece.


Andréa Mongeló – Qual a razão da escolha por André Green para a interlocução dos conceitos metapsicológicos freudianos em seu livro Narcisismo, pulsões e sexualidade?

Sissi Castiel - O meu interesse em Green, teve início primeiramente, por suas formulações a respeito das não neuroses, que é um tema de extrema relevância para a clínica deste século. Mas para além disso, existe um conceito em Green que é o de função objetalizante – afirma que quando um sujeito é capaz de se desligar do objeto primordial sem grandes danos, o investimento é objetalizado. A capacidade de objetalização, ou seja, de criação de novos objetos se aproxima do que eu entendo como sublimação. Além disso, a forma como ele articula os conceitos da metapsicologia para respaldar a clínica é muito frutífera. Com Green é possível ver trabalhar uma psicanálise que não perde a dimensão de seu objeto de estudo e, ao mesmo tempo, é aberta para tensionar conceitos com aportes de diferentes autores.


Andréa Mongeló – No capítulo intitulado Narcisismo e pulsão de morte, do seu livro citado na questão anterior, você aborda o quanto a clínica de hoje, requer uma articulação entre esses dois conceitos para o entendimento das subjetividades do nosso tempo. Porque eles são tão fundamentais na clínica atual?

Sissi Castiel - A clínica contemporânea das neuroses graves e dos casos limite nos confronta de forma muito clara com a problemática do narcisismo e do papel do objeto na vida psíquica do sujeito. Com relação ao objeto, nestes pacientes, o objeto primário não esteve presente na sua função de alicerce do que viria a ser o sujeito, esteve ausente como aquele capaz de narcisizar o sujeito. Como consequência, percebe-se que a autoestima do sujeito permanecerá posteriormente na dependência dos objetos que acabam ocupando uma posição de protagonismo em sua vida, na medida em que busca neles o reconhecimento e manutenção de seu equilíbrio narcísico. Via de regra, isto implica uma contínua decepção no encontro com o outro e o sujeito vem à análise para falar dessas decepções e não com um questionamento acerca de si mesmo. No entanto, sabemos que a experiência analítica não pode se centrar na análise do objeto, em que pese seu estatuto nessas subjetividades, pois é à transformação do pulsional que a análise se dirige. Minha proposição é a de que na experiência analítica, as expressões das decepções com os objetos levam a desinvestimentos e a um retorno narcísico. Esse narcisismo, é mortífero e implica maior ou menor destrutividade tanto em relação a si mesmo como em relação ao outro.










20 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo