• Joana C.

Diálogo com Monica Macedo

Confira que é a nossa entrevistada de julho!

Monica Macedo é Psicóloga. Psicanalista. Doutora em Psicologia. Bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq – Nível 1D. Professora do Programa de Pós-Graduação Psicanálise- Clínica e Cultura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Membro do Grupo de Trabalho Psicanálise, subjetivação e cultura contemporânea da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação (ANPEPP). Membro do Grupo Brasileiro de Pesquisa Sándor Ferenczi (GBPSF) e da International Sándor Ferenczi Network. Organizadora e autora dos livros: Neurose-leituras psicanalíticas (EDIPUCRS, 2015, 4ª Edição); Psicanálise e Política (ZAGODONI, 2020), dentre outros. Autora, junto com Eurema Gallo de Moraes, do livro Vivência de Indiferença - do trauma ao ato-dor (Casa do Psicólogo, 2011), também publicado em espanhol pela Psicolibro Ediciones, Buenos Aires.


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1- Andrea Mongeló - A psicanálise está nas universidades há muito tempo, inclusive esse foi um tema ao qual Freud dedicou o artigo Sobre o ensino da psicanálise nas universidades, publicado em 1919. Nesse sentido, podemos observar, nos últimos anos, um boom da psicanálise nas universidades brasileiras, como em programas de pós-graduação, linhas de pesquisa em mestrado e doutorado. O que, na sua percepção, pode ser compreendido acerca desse fenômeno?


Monica Macedo - A Universidade tem sido, nos últimos anos, um importante espaço de exercício consistente de problematização e de produção de conhecimentos em Psicanálise. Pode-se constatar sua relevância por meio do expressivo número de publicações em periódicos reconhecidos na área, bem como pela publicação primorosa de livros oriundos de Programas de Pós-graduação. São produções que contribuem para que a prática e a teoria psicanalítica sigam estimulando continuamente a reflexão necessária a respeito das condições humanas e das nossas circunstâncias históricas. Nessa perspectiva, entendo que a universidade exerce seu papel fundamental quando, como já afirmava Silvia Bleichmar, não se limita a promover capacitações técnicas, mas, sim, aspira à formação de intelectuais críticos e atentos à complexidade dos mais diversos fenômenos humanos.

No texto de 1919, Freud afirmava, claramente, o quanto a universidade teria a ganhar com a inclusão do ensino da psicanálise e enunciava outras exigências pertinentes à prática da clínica psicanalítica. No intuito de convidar a que se lance o olhar para a relação psicanálise e universidade, recorro a um texto de Jean Laplanche de 2015, intitulado “A favor da psicanálise na universidade”, publicado em seu livro “Sexual – a sexualidade ampliada no sentido freudiano 2000-2006”. Neste texto, Laplanche aborda elementos que me parecem indicar ricas possibilidades para a favorável relação de reciprocidade entre a psicanálise e a universidade. A universidade ofereceria à psicanálise a experiência valiosa da confrontação rigorosa de posições, do exercício da argumentação, da pesquisa extramuros. Nesse sentido, a universidade funcionaria, segundo Laplanche, como um antídoto às submissões institucionais– mesmo que não seja um antídoto infalível – com sua universalidade e liberdade de pensamento. No que se refere à universidade, abrigar o rigor e a ousadia do debate, a partir do reconhecimento de um campo epistemológico independente e plenamente legítimo como é a psicanálise, como refere Laplanche, contempla inquestionável valor de contribuição à instituição. A crescente procura por parte de psicanalistas, para cursar mestrado e doutorado na Universidade, dá testemunho das potencialidades advindas da inserção da psicanálise na universidade, bem como, me parece, oferece consistência aos argumentos a respeito da possibilidade de que, nesta relação recíproca, ambas se beneficiem.



2 - Andrea Mongeló - Um dos temas pelos quais circula sua produção é o das migrações. Esse é um movimento que esteve presente ao longo da história da humanidade, mas os últimos tempos parecem ter colocado ainda mais luz sobre ele. Como esse tema surge para sua pesquisa? Qual a contribuição da psicanálise para pensá-lo e também como utilizá-lo como dispositivo de escuta?


Monica Macedo - O tema das migrações insere-se em uma linha de estudos e investigações que venho desenvolvendo desde 2003, ano em que iniciei minha pesquisa de doutorado. A partir de estudos sobre o trauma, a destrutividade e a dor psíquica, fui me aproximando de temáticas vinculadas às experiências do campo intersubjetivo, à relação sujeito/cultura, às expressões diversas da destrutividade, às modalidades contemporâneas de subjetivação, entre outras. Assim, temas, como pertencimento/exclusão do laço social, alteridade, indiferença e crueldade, geraram desdobramentos e estimularam novos caminhos de estudo e pesquisa.

Nesse sentido, o trabalho de pesquisa em psicanálise, a partir da escuta de narrativas dos refugiados e migrantes, tem sido uma experiência fundamental de confirmação sobre a relevante contribuição que a psicanálise pode aportar nesse campo. São identificados o reconhecimento e a legitimidade dessas narrativas, além da denúncia de elementos produtores de violência e sofrimento advindos da tentativa de escamotear o impacto destrutivo referentes aos fatores sociais, políticos e econômicos implicados nessas experiências. Apesar de ser um movimento presente ao longo da história, acredito que as diásporas contemporâneas denunciam outros aspectos que precisam ser identificados e nomeados claramente. É o caso, por exemplo, das causas de deslocamentos por parte de milhões de pessoas que não podem ser pensadas sem que se leve em conta a desigualdade econômica entre as nações, as guerras, as precárias condições de vida que são ainda mais abaladas frente a algum acontecimento catastrófico, como terremotos e condições climáticas adversas. São fenômenos rapidamente definidos como oriundos de causas “naturais”, mas, na verdade, sabemos que dificultam ainda mais a vida de milhares de pessoas, denunciando vulnerabilidades e desamparos já existentes. Ao realizar importante trabalho junto aos sujeitos impactados pelo terremoto ocorrido na cidade do México em 1985, Sílvia Bleichmar já alertava para o fato de que as moradias construídas com materiais precários e em condições adversas de habitação tinham sido as mais duramente afetadas por ocasião do ocorrido. Na mesma linha de raciocínio, percebemos, como foco, o tema do enrijecimento das fronteiras e dos impedimentos legais impostos aos sujeitos das diásporas contemporâneas que denunciam a aplicação de distintos “direitos” humanos vinculados a diferentes passaportes. Evidenciam-se, assim, práticas de segregação e de violência que podem estar justificadas no léxico jurídico, mas não deixam de ser extremamente “desumanas”. Incluem-se, nesse caso, as ações de assistencialismo que, muitas vezes, induzem à dessubjetivação própria, à imposição de vitimização e à medicalização do sujeito a partir de uma compreensão pré-estabelecida (preconceituosa, inclusive) a respeito do que lhe cabe receber e daquilo que “atende” às suas necessidades. São dinâmicas importantes e muito frequentes no laço social e, portanto, precisam ser consideradas com especial atenção. O fundamental é ter como ponto de partida, frente aos migrantes e refugiados, o reconhecimento da existência de diferenças, as quais não deveriam, sob hipótese alguma, se sobrepor à igualdade que partilhamos como semelhantes.

A psicanálise, como dispositivo de escuta e de intervenção, tem muito a contribuir frente à inquestionável e impactante precarização e ao desalento vivido por muitas pessoas atualmente. Os migrantes e os refugiados dão um marcante testemunho a respeito da naturalização e do descaso frente ao risco à vida de outro, com a perpetuação da pobreza e da desigualdade. Em situações de sofrimento psíquico tão evidentes, parece-me incompreensível não pensar que a presença da psicanálise possa ser fundamental dispositivo de escuta ao sujeito. No ano de 2021, escrevi com duas colegas e orientandas, Mariana Felin e Raíssa Ramos – agora Mestres em Psicanálise (UFRGS) –, um artigo intitulado “Deslocamentos contemporâneos: reflexões sobre sujeito, cultura e política”. Este artigo deve ser publicado em breve pela Revista Psicologia Política. Repito aqui o que escrevemos neste texto: “A Psicanálise, com seus aportes sobre a complexidade do humano, no desvelamento da destrutividade e dos impasses no campo intersubjetivo, permite acreditar e apostar que, da resistência ao exercício de poder que dessubjetiva o outro e no enfrentamento à violência do desmentido, podem advir recursos e criações decorrentes da potente força de Eros”. Uma forte motivação que encontro para minha inserção na pós-graduação reside em, efetivamente, acreditar no potencial vitalizante da psicanálise.



3 – Andrea M. - Ainda sobre as migrações, podemos pensar em uma interlocução com o tema de seu livro “Vivência da Indiferença”?


Monica M. Temáticas centrais do livro Vivência de Indiferença – do trauma ao ato-dor, escrito com a psicanalista Eurema Gallo de Moraes, estabelecem inegável interlocução com o tema das migrações, ou ainda, com a complexidade de elementos que se faz presente nos impasses relativos às diásporas contemporâneas. A reflexão sobre as práticas contemporâneas de dessubjetivação direcionadas ao estrangeiro e, também, a inadiável problematização sobre as condições dos laços sociais e dos impasses no sentido de pertencimento e de exclusão não podem prescindir do reconhecimento à proximidade existente entre a indiferença e a crueldade. Esta proximidade fica evidente na escuta ao testemunho de migrantes e refugiados. Acredito que a psicanálise tem muito a contribuir nessa leitura e na denúncia ao desvelar e lançar luz aos aspectos de violência que ficam, inclusive, algumas vezes, dissimulados por meio de práticas que condenam o sujeito migrante a ocupar, silenciosa e resignadamente, um lugar precarizado e vulnerável. A indiferença fomenta a exclusão, mediante o rechaço à diferença que o outro representa.


4 – Andrea M. Qual a importância das ideias de Ferenczi, o enfant terrible da psicanálise, para pensarmos questões do nosso tempo?


Monica M. Para começar a resposta de uma forma direta, acredito que são exatamente as questões de nosso tempo que promovem a retirada a obra de Sándor Ferenczi do injusto ostracismo ao qual foi condenada. No final dos anos 20, Sándor Ferenczi sofreu importante exclusão e rechaço por parte de figuras proeminentes do movimento psicanalítico. Joel Birman, no seu importante livro Arquivo e memória da experiência psicanalítica – Ferenczi antes de Freud, depois de Lacan, faz um assinalamento interessante ao referir que, mesmo sem ter sido expulso no que se refere à filiação institucional, Ferenczi foi simbolicamente rechaçado do campo psicanalítico. Cabe sempre lembrar que esse rechaço se deu de forma muito cruel uma vez que foi silenciado mediante a atribuição de estar louco. Assim, o acesso a sua obra foi bloqueado/dificultado mediante um ataque a sua lucidez. Podemos considerar que os elementos inovadores, incansavelmente propostos por Ferenczi e ancorados em críticas direcionadas a certa ritualização da função do analista e da transformação do encontro analítico em uma relação “pedagógica”, provocavam desavenças e profundo desagrado em figuras importantes dos inícios da psicanálise. Como disse, são, ironicamente, a riqueza e consistência de seus aportes teóricos e técnicos – os quais implicam sobremaneira a função do analista – referentes a singulares modalidades de sofrimento psíquico, que fazem com Ferenczi seja “recuperado” como importante autor e pensador da psicanálise. Destaco, dentre suas inúmeras contribuições, o fato de ampliar a possibilidade de repensar a dimensão do trauma desde uma ótica que enfatiza o efetivamente vivido e, sobretudo, o papel determinante do desmentido na instauração de seu caráter patológico. As experiências do campo intersubjetivo são imprescindíveis para a compreensão do traumático; tampouco a função da indiferença, operada via desmentido do outro, frente ao testemunho legítimo do sujeito a respeito da violência experenciada, pode ser escamoteada nesta leitura. Talvez, em Ferenczi, possamos encontrar a definição, ou melhor, o elemento que torna inquestionável a importância de conjugar a assimetria presente nas relações humanas com responsabilidade e ética, e não com autoritarismo ou uso de poder. Trata-se de um autor que nos exige pensar sobre nossa responsabilidade ética e humana frente ao desamparo e desalento do outro, nosso semelhante. Este é um desafio que se refere, de forma eloquente, às peculiares questões dos atribulados tempos que estamos vivendo!





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