• Joana C.

Diálogo com Maria Rita Kehl

Neste mês temos um super diálogo para apresentar à vocês. MARIA RITA KEHL, ela dialoga com Andrea Mongeló numa conversa que vai desde sua formação como jornalista entre 1974-81 relatando sua trajetória, seus aprendizados, suas dificuldades naquela época. A autora relata também sobre seus 2 livros O tempo e o cão e Ressentimento. Boa leitura! Lembrando que o conteúdo é inédito!


Maria Rita Kehl é doutora em psicanálise pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), atua desde 1981 como psicanalista em São Paulo. Entre 2006 e 2011, atendeu na Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Guararema (SP). Integrou a Comissão Nacional da Verdade (2012-2014). Foi jornalista entre 1974 e 1981 e segue publicando artigos em diversos jornais e revistas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em 2010, ganhou o prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção, com a obra O tempo e o cão: a atualidade das depressões (Boitempo). Pela Boitempo, publicou também Videologias: ensaios sobre televisão (2004 – em coautoria com Eugênio Bucci), 18 crônicas e mais algumas (2011), Deslocamentos do feminino (2016), Bovarismo brasileiro (2018) e Neném outra vez! (2018 – em parceria com Laerte Coutinho, selo Boitatá).





Andrea Mongeló - Como jornalista, você foi editora de cultura do Movimento, um dos mais importantes órgãos da imprensa alternativa durante o regime militar. Como escritora, entre tantos livros publicados, foi vencedora do prêmio Jabuti de Livro do ano de Não ficção – com O tempo e o Cão: a atualidade das depressões(2009). Como psicanalista, não fez uma formação em uma instituição de psicanálise, caminho trilhado pela maioria dos psicanalistas. O que esse percurso nos fala sobre você?

Maria Rita Kehl - Nossa, que pergunta difícil. Estamos todos, sempre, tão "dentro" da vida que é difícil analisá-la objetivamente. As vezes fazemos planos que são atravessados por circunstâncias... e vamos parar em outro lugar. No meu caso é diferente: não fiz exatamente planos pra minha vida e hoje, olhando pra trás, gosto de ter me deixado levar. Por que virei jornalista, aos 22 anos? Porque quis sair da casa de meus pais e morar com amigos, então precisei ter algum ganho. Não estava formada, não dava pra trabalhar na psicologia. Bati na porta do jornalzinho de bairro perto de casa, me ofereci para escrever colunas semanais (40 linhas! na época não contávamos os toques, era máquina de escrever). Pronto: com esse freeelance e uma monitoria na faculdade consegui pagar minha parte no aluguel de um apezinho com 2 amigas. Aí, me empolguei: também me engajei em novos jornais alternativos de oposição à ditadura e, como não tinha filhos, podia ficar na redação - acabei editora de cultura, aprendi muito no Movimento e no Em Tempo. Tb trabalhei fazendo entrevistas pra Rádio Mulher (lá em Santo Amaro, 1 hora de ônibus...). Ali, uma radialista me perguntou se eu poderia tratar dela em terapia e... virei um projeto de psicanalista. Grupos de estudo, supervisões... pouco tempo depois tinha um pequeno movimento de consultório. Sempre morando em casas coletivas, então conseguia pagar moradia e comida. O que esse percurso fala de mim? que improvisei bem a minha vida, e - salvo percalços - deu mais ou menos certo. Os livros vieram muito depois, resultado de maior experiência na clínica. Andrea M. - O tema do seu livro Ressentimento(2020) parece ser cada vez mais atual, não somente na clínica, mas também fora dela. Quais os efeitos danosos do ressentimento, tanto a nível individual, quanto social?

Maria Rita - O que é o ressentimento? Uma mágoa à qual o sujeito se apega. Mas por que? Toda mágoa passa, todo traidor merece ser perdoado quando pede perdão... por que alguns sujeitos não querem perdoar o ofensor, não querem deixar a passar? Minha proposta, a partir de Nietzsche e Freud: o ressentido se apega à mágoa, ao dano ("nunca vou perdoar"... etc) para não quer que se deparar com sua própria covardia, ou com seu jogo interesseiro, no momento em que foi ofendido ou fracassou numa jogada em que esperava se dar bem. O ressentido pensa a si mesmo como um "puro", inocente, vítima da maldade alheia. Para se manter nesse lugar, sem se implicar na responsabilidade (pelo menos parcial) por seus fracassos, ele precisa alimentar essa posição de vítima. No caso do ressentimento na política, o mecanismo é parecido. Não lutamos, ou não insistimos na luta - há certa passividade na sociedade brasileira. Até mesmo a oposição à ditadura de 1964-85, foi mais fraca aqui do que nos outros países latinoamericanos que sofreram ditaduras no mesmo período. O brasileiro é ressentido com o Brasil mas não percebe o quanto a sociedade colaborou, ativa ou passivamente, para manter nossas mazelas. Fomos o último país livre a abolir a prática hedionda da escravidão e, 3 séculos depois, parte da sociedade se ressente com a lei de cotas que abriu espaço nas universidades federais para afrodescendentes. A elite mantinha empregadas domésticas em regime de semi escravidão e se ressente com a PEC que estipulou direitos trabalhistas para esse grande contingente de pessoas (na maioria, mulheres) trabalhando sem direitos e quais sem descanso. Toleramos 21 anos de ditadura e muita gente se "ofendeu" quando a presidente Dilma criou a Comissão da verdade...

Andrea M. - Em O tempo e o Cão, você sustenta que “aquilo que chamamos de depressão é um quadro mais próximo da clínica das neuroses, do que das psicoses”. O que nos leva a pensar o quanto esses pacientes poderiam se beneficiar com uma análise, mesmo com a gravidade de alguns casos. Mas a medicina e suas medicações, parecem ter capturado esses pacientes. Na sua percepção o porquê isso aconteceu e segue acontecendo?

Maria Rita K. - Bem, como dizia Nelson Rodrigues (ou outro escritor, não tenho certeza): "o auto conhecimento é sempre má notícia". Se o deprimido quiser encarar um processo psicanalítico, sabe que vai se deparar não apenas com os eventos dos quais foi vítima, mas também com sua própria responsabilidade: comodismos, covardias, apego ao "lugar quentinho" de quando algum adulto o protegia, etc. Na origem, o sujeito não ficou inativo, passivo, porque se deprimiu. Ao contrário, ele se deprime porque recuou diante de desafios, acomodou-se, etc. A medicalização é o caminho que alimenta essa corrente: você não tem responsabilidade por seu sofrimento, ele decorre de falta de serotonina, ou de qualquer outra substância química. De fato, as medicações aliviam a depressão - mas não tornam o sujeito mais potente diante da vida. A psicanálise pretende desatar os nós que impedem a potência de se manifestar - potência de pensamento, de luta, de enfrentamento de problemas... Mas a medicação parece o caminha mais fácil. Claro que não desaconselho a medicação para os analisandos muito deprimidos. Mas sempre insisto, até onde está a meu alcance, para que continuem a análise.




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