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  • Foto do escritorJoana C.

Diálogo com Denise Maurano

Neste mês, DENISE MAURANO é nossa entrevistada!

Denise que é Psicanalista, Membro do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise Seção Rio de Janeiro, Doutora em Filosofia pela PUC-RJ e Universidade de Paris XII.

Publicou pela Zahar Para que serve a Psicanálise? (2003); A face oculta do amor (2001) Imago; Elementos da clínica psicanalítica: o desejo e sua ética (2018); e Elementos da clínica psicanalítica: as implicações do amor (2022) pela Editora Corpo Freudiano.

Essas duas últimas obras de Denise são 2 volumes de uma trilogia acerca dos elementos da clínica que servem de norte ao psicanalista de início, no percurso e na conclusão de uma análise.

Confira essa super entrevista, que possui uma sustentação teórica com fundamentos da psicanálise em cada resposta!

As perguntas foram elaboradas pela Andrea Mongeló (psicanalista SIG)


1- Andrea Mongeló: Como foi a ideia de relançar seus escritos em forma de uma trilogia?

Denise Maurano: Por ocasião do meu concurso para professor titular da Unirio, ao apresentar meus trabalhos de pesquisa, me dei conta que as obras Nau do Desejo: o percurso da ética de Freud à Lacan, A face oculta do amor: a tragédia à luz da psicanálise, e Torções: a psicanálise, o barroco e o Brasil, compunham os três elementos da clinica psicanalítica: desejo, amor e gozo, que mereciam ser articulados em uma trilogia, com as amarrações cabíveis. E mais que isso, que eu poderia agregar às publicações anteriores novos capítulos e incluir alguns anexos pertinentes. O que vimos fazendo.


2 - Andrea M.: Desejo, Amor e Gozo, tem um estatuto diferenciado na psicanálise, e você os considera como elementos da sustentação da clínica psicanalítica. Pode nos falar um pouco sobre isso?

Denise M. Tudo começa com o desejo. A vida psíquica se inaugura com um ato de desejo, bem como a entrada de alguém em análise só se dá pela via do desejo. Escutamos falar que alguém precisa de análise. Mas, isso não existe. Análise só acontece a partir do surgimento de um desejo decidido que leva alguém a trocar seu sintoma comum por um sintoma analítico. Ou seja, os sintomas passam a ser endereçados. Para que essa troca ocorra, a transferência, ou seja, o amor referido à pessoa do analista, sustentado pela suposição de saber que esse sintoma fala, e que tem alguém que pode escutá-lo, vai configurar a possibilidade do trabalho analítico prosperar. Agora, o segundo passo. Do manejo do amor na dinâmica da transferência vai depender o sucesso da análise. Esse amor está atravessado por todos os impasses que o teatro trágico tão bem denota e que devem instruir os analistas. Esses percalços

comparecerão ao vivo e à cores, na cena analítica, com seus excessos, intensidades,

reviravoltas. Afinal, nossa cognição é impotente para dar conta dos modos como

operamos na relação ao Outro, lugar de referência para o que somos.

Porém, para que uma análise chegue a seu termo, para além da direção ética

orientada pelo desejo e do manejo do amor que a sustenta, é preciso que

consideremos os imperativos pulsionais que modulam nossas modalidades de gozo

privilegiadas, para nosso melhor e nosso pior. Questões relativas ao fim da análise

tocam o que diz respeito aos destinos do gozo, para cada sujeito, do qual se espera um maior acolhimento de suas exigências pulsionais. Afinal, “O Eu deve advir onde Isso

estava”. Não é mesmo? Tais imperativos de gozo assumem diferentes orientações, e

comparecem numa análise de diversas maneiras, desde os sintomas, e até mesmo na

musicalidade da fala. O curioso é pensar que essas orientações prevalentes, além de

dizerem da posição de um sujeito, também podem denotar modos de funcionamento

prioritários nas diferentes culturas.


3-Andrea M. A ética na psicanálise, como você coloca, é uma ética diferente da tradição filosófica, onde ela se refere a um Bem como ideal a ser atingido. Ao que ela

remete na psicanálise?

Andrea M. Por mais que os ideais sejam caros à cultura, e longe de nós querermos tirá-los de cena, a questão é que a psicanálise emerge justamente daquilo que conflita com tais ideais e revela que a consciência não é a dona da casa do psiquismo, pois disputa com o inconsciente tal domínio. Assim trabalhamos não com os ideais, mas com a “queda na real”. Queda essa “amor-tecida” pelo manejo da transferência. Essa orientação ética para o real, indica que no fim das contas não há Outro que garanta coisa alguma. Nosso edifício simbólico é um artifício do qual somos todos responsáveis por mantê-lo de pé. Advertidos que isso é nossa responsabilidade. Como diz Didier-Weill, nos cabe transformar o real bruto em real humano. Não negamos o osso do real que nos atravessa a garganta. Precisamos poder saber fazer algo com ele.


4- Andrea M. A propósito do tema da ética, como vê esse movimento de tentativa de

regulamentação da Psicanálise, e os cursos que visam “formar” psicanalistas?

Denise M. É um absurdo. Não há procedimentos que garantam a emergência do “desejo de analista” que é a única via pela qual alguém pode sustentar essa função. Ou seja, mesmo que alguém obedeça ao famoso tripé de sustentação da formação do analista: ensino teórico, supervisão e análise pessoal, nem isso garante que disso advirá alguém habilitado à função de analista, porque entre alguém que se candidata a ela e a confirmação desse desejo, não há garantias. A ética da psicanálise opera portanto, também na formação do analista. Um analista é um resultado possível de um

processo de análise. Mas nada o garante. Agora, imagine você como cursos

acadêmicos pode prometer isso via distribuição de diploma de psicanalista? A

psicanálise é um ofício que não cabe dentro da camisa de força da regulamentação.

Temos um impossível ineliminável no meio do caminho. Não é que não queiramos ser

regulamentados, mas é que fazê-lo seria legitimar o ilegítimo. Sugiro os livros O ofício

do psicanalista I e II , produzidos pelo Movimento da Articulação das Entidades

Psicanalíticas do Brasil , para melhores esclarecimentos a respeito.


5- Andrea M. Para encerrarmos nos conte um livro que está lendo atualmente, e um que foi importante na sua clínica.

Denise M. Acabei de ler A metafísica dos Tubos de Amélie Nothomb. Genial como essa escritora explora os limites de sua memória para contar de um modo absolutamente original seus primeiros anos de vida. É um mergulho no início da vida.

Não à toa, quando me pergunta, me vem Freud, de imediato. E mais ainda, os textos

Observações sobre o amor de transferência e a dinâmica da transferência. Sempre me

impactou o modo como ele disseca os impasses do amor e propõe seus manejos.






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