• Joana C.

Entrevista com Ana Suy

Atualizado: 11 de mar.

Neste mês o diálogo é com Ana Suy!

Venha conferir o que a autora nos escreveu sobre a relação entre poesia e psicanálise, sobre maternidade, sobre suas leituras e o que adoramos: dicas de livros!!!

Ana Suy Sesarino Kuss: Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ (2021). Mestre em Psicologia pela UFPR (2014). Possui graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (2007) e pós-graduação em Psicologia Clínica - Abordagem Psicanalítica pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (2009). Psicanalista, professora da graduação do curso de Psicologia da PUC-PR e de várias pós-graduações. Autora do livro "Amor, desejo e psicanálise" (Editora Juruá - 2015) e de livros de crônicas poéticas (Editora Patuá).


Andréa Mongeló - Seus livros Não pise no meu vazio, assim como As cabanas que o amor faz em nós e A corda que sai do útero, são composto de contos e poesias, e demonstram a sua sensibilidade e delicadeza no uso das palavras. Já Amor, desejo e psicanálise é um livro mais técnico, mas sobre temas que muito inspiram uma escrita mais poética. Como é esse trânsito entre poesia e psicanálise?


Ana Suy - A psicanálise causa em mim efeitos poéticos. Escrevi “Amor, desejo e psicanálise” para a minha dissertação de mestrado, que veio a ser publicada em formato de livro posteriormente. É mesmo um livro técnico, acadêmico. Mas como seria falar de amor sem recorrer à poesia? Impossível! Então, além do livro conter muitas epígrafes com fragmentos de poemas, a própria escrita acaba tendo esse “tom” poético.

Já os meus três livros de crônicas e contos poéticos, “Não pise no meu vazio”, “As cabanas que o amor faz em nós” e “A corda que sai do útero” não têm nadinha de teoria psicanalítica, mas com frequência, quem os lê conta que encontrou algo de psicanálise lá. Não é que os livros sejam de psicanálise, mas é que o encontro com a psicanálise impregna. Quem se depara com a radicalidade do inconsciente, quem descobre em uma análise essa alteridade no corpo que é o inconsciente, jamais se livra dele. Vale destacar que esses três livros eu publiquei durante a escrita da tese do meu doutorado. As pessoas me perguntavam “mas como você consegue escrever poemas e crônicas enquanto escreve uma tese?” Mas a verdade é que não se trata de conseguir escrever, mas de conseguir não escrever. Como eu disse no início, a psicanálise tem efeitos poéticos para mim. Estudar psicanálise, fazer análise me levam à necessidade de escrever. Eu escrevo porque não sei como não escrever. Então, precisei escrever esses livros para tirar algo de mim que só sai com a escrita poética – para então, poder escrever a minha tese. Mas a própria banca de doutorado destacou positivamente que minha escrita, mesmo a que eu penso ser acadêmica, é poética!

Em breve (abril começa a pré-venda) do meu novo livro. Se chama “A gente mira no amor e acerta na solidão”. Ele sairá pelo selo Paidós, da editora Planeta, que é um selo que pretende tratar de temas da psicologia e da psicanálise para um público amplo. Vamos ver como será lido, estou entusiasmada!


A. M. - O amor e o desejo, tem seu lugar no discurso dos amantes e na poesia, Freud o considerava como modelo de busca da felicidade. Esse tema é tão relevante e ao mesmo tempo tão complexo para a psicanálise, como foi a escolha por abordá-lo em um livro?


Ana Suy - Foi o tema da minha pesquisa de mestrado. Quando eu fui aceita no programa de mestrado da UFPR tinha um pré-projeto no qual eu pretendia estudar a interpretação em psicanálise. No entanto, em certo ponto da minha trajetória eu travei e não conseguia mais escrever. Nesse tempo, me deparei com o livro “Amor paixão feminina”, da psicanalista Malvine Zalcberg e ali soube que eu não poderia estudar outra coisa. Propus a mudança de tema ao meu orientador na época, muito apreensiva, mas ele topou. Desde então, é o tema que me serve de bússola para a pesquisa, mas não só....para a escrita, seja ela qual for, para a vida!


A. M. – As redes sociais se tornaram fonte de informações sobre vários temas. No livro O infamiliar na contemporaneidade: o que faz família hoje? seu texto aborda o que você chama de “ciladas da maternidade”, os efeitos das redes sociais nas concepções de maternidade que vemos atualmente e que podem acarretar em sofrimento para a dupla mãe-bebê. Pode nos falar um pouco sobre sua percepção desse movimento?


Ana Suy- Quando eu tive minha filha me deparei com uma ampla quantidade de conteúdos sobre o tema da maternidade com esse tom imperativo e pedagógico quase hipnótico que convoca as mulheres a maternarem de um modo específico. O mundo da maternidade pode ser assustador e muito cruel também. Buscando por perspectivas psicanalíticas, achava pouquíssima coisa ou coisa alguma. Como a psicanálise trabalha no caso a caso, dificilmente encontramos “manuais” sobre isso ou aquilo. Então, ao buscar informações sobre amamentação, sono, alimentação, quase tudo o que eu encontrava era um uníssono em torno de fortalecer o vínculo entre a mãe e o bebê. É claro que isso é fundamental, mas a psicanálise nos ensina que entre um e outro é preciso que haja algum intervalo, algum terceiro. Esse terceiro, muitas vezes é rechaçado, em muitos desses conteúdos. Comecei a escrever algumas dessas críticas que faço às redes sociais nas redes sociais, justamente na tentativa de inserir algum discurso que se diferenciasse dessa massa de conteúdos que havia. Então, o psicanalista Luiz Mena me convidou para participar da publicação desse livro com um artigo sobre esse tema. Ali eu destrincho de modo teórico um pouco dos meus incômodos e questões.

Penso que o excesso de conteúdos nas redes sociais acerca desse tema se casa com o excesso de tempo que uma mãe costuma ficar sozinha com seu bebê nos primeiros meses. As mulheres que tiveram bebês durante a pandemia ficaram ainda mais à mercê das mães-influencers ou profissionais-influencers que encarnam uma posição de quem sabe e explica tudo sobre como criar um filho, sobre como uma mulher se transforma em mãe. Para muitas mulheres isso pode ser bastante danoso, já que cada mulher precisa inventar a mãe que será e mesmo a mulher que será depois da maternidade. É o filho quem ensina a mãe a ser mãe e não a galera da internet. Parece simples e óbvio quando falamos, mas para uma recém mãe, não é.


A. M. – Para finalizar, pode nos contar um livro que está lendo atualmente ou leu recentemente e que lhe suscitou questões, e um livro que considera importante para a sua clínica?


Ana Suy - Os livros da Malvine Zalcberg são essenciais para a minha clínica. Tanto o “Amor paixão feminina”, quando o “A relação mãe e filha”. Mais recentemente ela lançou um terceiro livro “De menina a mulher” com pequenos artigos para o público amplo sobre diversos filmes que tocam na temática da relação entre mãe e filha.


Recentemente eu li “Uma questão de vida e morte”, do Irvin Yalom e da Marilyn Yalom e foi uma leitura que me tocou profundamente. Trata-se de um casal que viveu muitas décadas juntos e começam a escrever esse livro quando Marilyn recebe o diagnóstico de um câncer terminal. O livro é escrito a quatro mãos, cada um escreve um capítulo. No meio do livro Marilyn vem a falecer e Yrvin termina a escrita sozinho com sua tristeza e amor pela companheira de vida, enquanto elabora algo de seu luto. É muito emocionante.

Atualmente estou lendo “Pessoas normais”, da Salley Rooney e “Tudo é rio”, da Carla Madeira. São duas escritas que estão me animando muito!

Por fim, recentemente li “O riso da medusa”, da Hélène Cixous e é incrível, certamente uma leitura obrigatória para qualquer pessoa que se interessa pela psicanálise.






Foto divulgação: Ana Suy Sesarino Kuss-doutora em Psicanálise e a direita Andrea Mongeló-Psicanalista-SIG Freud Associação Psicanalítica






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