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Diálogo com Alba Flesler

Atualizado: 29 de ago. de 2022


Alba Flesler é Analista Membro da Escola Freudiana de Buenos Aires, instituição da qual foi presidente de 1995 e onde ministra seu Seminário anual. Supervisora de várias instituições hospitalares na Argentina, ministrou conferências e Seminários em Paris, Nova York, Rio de Janeiro, Chile, Barcelona e Dublin.

Entre suas obras estão: A criança em análise e o lugar dos pais; Crianças em análise: apresentações clínicas; A criança em análise e as intervenções do analista. Este último livro lançamento inaugural da Editora Discurso.


Agora confiram esta super entrevista que Alba Flesler nos concedeu e foi transcrita para o português. Estou grata a todos que fizeram este trabalho possível, por seu empenho e generosidade: Josias Fontoura e Andréa Mongeló.


Andrea Mongeló- Como foi a escolha por publicar o livro A criança em análise e as intervenções do analista no Brasil, e mais especificamente por uma editora do RS? Como é sua relação com a psicanálise e os psicanalistas brasileiros?


Alba Flesler – Minha relação é uma relação de bastante tempo, e que muito me satisfaz, ao longo dos anos e em diferentes âmbitos. Não só porque tive oportunidade de visitar os diferentes lugares maravilhosos do Brasil, quando me convidaram a dar Conferências ou Seminários, mas também por que mantemos com os colegas do Brasil um frutífero intercâmbio e reuniões periódicas de uma vitalidade enriquecedora. Como, por exemplo, a reunião Lacanoamericana de psicanálise, ou também das reuniões organizadas pela Convergência Movimiento Lacaniano por el Psicoanálisis Freudiana (fundado em Barcelona em 1988, do qual fazem parte quarenta e cinco associações psicanalíticas de vários países). Dessa maneira, a minha relação com a psicanálise que tem uma produção enorme no Brasil, se mantém ao longo dos anos e, graças ao avanço da tecnologia, nos últimos anos de pandemia proporcionou uma aproximação maior com colegas e analistas em formação, que me convidaram a participar de grupos de estudos, vêm aos meus seminários e, também, me consultam para supervisão ou consultas de psicanálise. De modo que é uma relação de longo tempo, se mantém e tem uma enorme produtividade.

A questão de porquê escolhi publicar este livro está relacionada ao meu primeiro livro “A criança em análise e o lugar dos pais” que teve enorme repercussão no Brasil, e pouco tempo após a publicação esgotou-se. E muitos analistas pediram segunda edição, e esperamos que isso ocorra! Então quando recebi a proposta para publicar “A criança em análise e as intervenções do analista”, o que foi para mim uma alegria, ser publicado em português... É um livro que me trouxe muita satisfação na Argentina, pela especificidade que se propõe: considerar esta pluralidade das intervenções do analista quando se trata dos tempos do sujeito na infância.



Andrea Mongeló - Na sua percepção, a análise não se daria por especialidades – analista de crianças, adolescentes, adultos – mas considerando os tempos do sujeito, de modo a poder pensar as especificidades do ato analítico. Pode nos falar um pouco sobre essa sua construção?


Alba Flesler - A respeito dessa construção conceitual, para mim tem sido um achado poder desvincular a análise de uma proposta em que a abordagem se centra nas idades cronológicas de quem consulta. E isso me permitiu refletir sobre questões de ordem lógica na nossa teorização que permitiram desprender a psicanálise de uma especialidade, como eu disse, por idades. Sobretudo porque essa abordagem só permitia, antes da minha proposta, trabalhar com sintomas em âmbitos institucionais onde aos analistas era difícil marcar por idade certos casos clínicos. Então me propus investigar a temporalidade, a dimensão temporal, considerando que a psicanálise se dirige, o ato analítico aponta para o que é o objeto específico da psicanálise, que é o sujeito.

Toda disciplina científica deve delimitar o objeto ao qual ela se dirige, para poder manter seu “estatuto” de cientificidade. Pois bem, o objeto da psicanalise é o sujeito. E a criança, para a conceitualização da psicanálise, mantém-se um objeto no fantasma do adulto; assim se desenvolveu toda a conceitualização que Freud faz do lugar da criança para o outro. Esta diferença, entre a criança e o sujeito, me permitiu pensar e considerar que a criança, sendo um objeto do fantasma materno, não é a quem se dirige o analista quando deve intervir, quando a recebe para análise na infância. Mas também ao sujeito, porque como eu disse anteriormente, é o sujeito o objeto do ato analítico. Dessa maneira, será necessário considerar que o sujeito ao qual se dirige o ato analítico, não só tem singularidades na abordagem, mas também necessita considerar os tempos de estruturação, de construção do sujeito. As especificidades do ato analítico estarão baseadas na delimitação de em que tempo está o sujeito. Vou dar um exemplo para poder entender a diferença e o efeito clínico que há em considerar os tempos, ao invés das idades. Por exemplo: os tempos do sujeito implicam diferentes tempos do simbólico. Não é o mesmo estar num tempo de linguagem, e dispor da palavra, daquele que dispõe da palavra, e sua relação com a busca do saber. Uma manifestação dessa diferença é o tempo em que as crianças começam a fazer perguntas ao outro, e apenas mais tarde, com o tempo que decorre, são capazes de formular-se perguntas. Quando chega um analisante à uma consulta com o analista, e ao invés de formular-se perguntas a si, formulam perguntas ao analista, isso revela um tempo do sujeito, mais do que uma idade. E assim como pensamos o tempo das perguntas, poderíamos pensar os tempos da relação com o corpo, os tempos relacionados com os gozos, por exemplo, os gozos orais tem diferentes tempos. Não podemos considerar o mesmo tempo um gozo do objeto oral no corpo da mãe, no corpo do outro, que buscar o objeto de gozo no corpo de um companheiro. Para poder beijar os lábios de um companheiro precisa ter se produzido diferentes tempos do sujeito, e estes tempos não se produzem de um modo evolutivo, mas dependem de operações que são contigentes. O tema realmente central na minha proposta, é pensar as intervenções do analista atendendo aos tempos do sujeito não por especialidades, mas por especificidades do ato analítico.


Andrea M. “O analista atende a criança, mas aponta para o sujeito”, quais os efeitos dessa premissa nas intervenções do analista na sessão?


Alba Flesler – É uma proposição breve, mas que vem como uma conclusão a um desenvolvimento conceitual referido na questão anterior. Se trataria de dizer que o analista atende a criança do Outro, mas aponta ao sujeito. Posso prosseguir dizendo que isso tem como consequência que atender a criança do Outro é poder receber a criança que esse Outro nos traz. Quando recebemos os pais, escutamos que criança de seu fantasma está trazendo, porque como eu dizia anteriormente, a criança sempre é um lugar no fantasma do adulto. Dessa maneira, tem valor, tem um significado, e o analista atende a essa criança que o outro traz. Mas, aqui vem a segunda parte da proposição: atende-se essa criança, mas aponta-se para a resposta do sujeito. Porque uma maneira simples, mas conceitualmente rigorosa de definir o sujeito, é dizer que o sujeito é uma resposta. Lacan, na verdade, diz que o sujeito responde ao Outro. Eu tomei esta resposta como um modo de instaurar um traço diferencial a respeito da criança que o Outro lhe demanda ser. Então eu digo que o Outro espera uma criança e demanda a ela que ocupe um lugar, um valor, aquilo que signifique para ele no seu fantasma. Mas, ele vai se encontrar com uma resposta diferente por parte da efetuação subjetiva. Então nessa frase, o analista atende a criança, mas aponta para o sujeito. Existe uma lógica que trata de introduzir a diferença entre a criança e o sujeito. A criança como objeto do Outro, e a criança como sujeito, traço diferencial, marca de não identidade ao objeto que o Outro lhe propõe a ser.


Andrea M. – Para finalizar, pode nos contar um livro que está lendo, ou leu recentemente e que lhe suscitou questões e um livro que considera importante para a sua clínica?


Alba Flesler - Na verdade, é um prazer enorme para mim a leitura e tenho em geral muito interesse em livros de literatura e arte. Mas vou comentar o que está sobre a minha mesa nesse momento. Estou lendo um livro sobre Velázquez, editado por Júlian Gállego, que é uma comentarista de arte muito conhecido da obra de Velázquez. E que me ajuda a pensar em muitas questões que nós analistas chamamos de sintoma. Também estou lendo um livro de Mario Vargas Llosa que narra seus encontros com Borges, que se chama Medio Siglo con Borges. E em relação à clínica estou trabalhando com alguns livros de André Breton, como o Manifesto Surrealista, da concepção dos surrealistas sobre o inconsciente, a diferença do inconsciente e sua lógica tal como concebemos na psicanálise. Esses são alguns dos textos que, nesse momento, são de importância para a minha clínica psicanalítica.



Tradução: Andréa Mongeló - Psicanalista Sigmund Freud Associação Psicanalítica

Revisão Técnica: Josias S. Fontoura - Editora Discurso










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