• Joana C.

Depressão: teoria e clínica

A proposta da psicanálise é da escuta do sofrimento, manifestada de forma singular por cada sujeito que busca um analista. Os diagnósticos, por si só, não dizem sobre o sofrimento daquele que busca uma análise. Mas é possível afirmar que a depressão é um sintoma do mal estar contemporâneo, podendo estar presente em qualquer estrutura psíquica, e demandando do psicanalista, uma compreensão sobre o tema. Como podemos pensar a depressão a partir da psicanálise?


O mais novo lançamento sobre o tema é da editora Blucher: Perto das trevas – A depressão em seis perspectivas psicanalíticas, organizado por Alexandre Patricio de Almeida e Alfredo Naffah Neto. Como o próprio título anuncia, a temática da depressão vai ser desenvolvida por cada um dos psicanalistas convidados, a partir de ideias de autores clássicos da psicanálise, mas que não abordaram diretamente o conteúdo, nas teorias que desenvolveram. Além desse desafio, a proposta era de escrever a partir da obra que dá nome ao livro Perto das Trevas de William Styron, escrita em 1991, onde narra de forma muito franca seu sofrimento, e suas ideias suicidas. Os psicanalistas convidados escrevem, cada um dos sete capítulos do livro, fazendo interlocução entre Freud, Klein, Bion, Winnicott e Lacan, com a obra de Styron. Muitos trechos de Perto das Trevas ilustram as aberturas de cada capítulo, ou são utilizados como vinhetas clínicas de onde os autores partem para discutir as questões teóricas e técnicas.


Outro livro sobre o tema, que tem uma abordagem interessante, pois privilegia os aspectos clínicos, é Atendimento Clínico da Depressão, organizado por Daniel Kupermann e Karin de Paula, da coleção Série Prática Clínica. Os autores que compõem o livro, apresentam casos atendidos por eles, onde o leitor pode acompanhar tanto a compreensão teórica que embasa o fazer clínico, quanto as questões técnicas de manejo, transferência e impasses que, em muitos momentos, se encontram presentes com esses pacientes. O livro circula por questões como “O que pode uma Psicanálise Diante da Depressão?”, passando pela depressão na infância e pela dramaturgia como recurso na clínica, mais especificamente uma escrita construída por analista e analisante, experiência peculiar, descrita pelo psicanalista Ricardo Hirata.


E outro livro também fundamental sobre o tema, é o da entrevistada do mês no blog, Maria Rita Khel, O tempo e o Cão. Nesse livro, vencedor do prêmio Jabuti de não ficção de 2010, a autora faz um exame minucioso da depressão, de forma muito clara, mesmo usando autores da filosofia e o conceito de tempo lógico lacaniano, que nem sempre é de fácil compreensão. O livro se divide em três partes: Da melancolia à depressão, onde acompanhamos a mudança em relação ao tratamento que era dominado pelo saber psiquiátrico, e a diferença imprimida por Freud nesse cenário. A segunda parte, O tempo e o Cão, onde a autora lança mão de autores da filosofia como Benjamin e Bergson, e juntamente com Lacan para fazer uma relação entre a urgência que a vida contemporânea propõe, e o aumento dos sintomas depressivos. E uma terceira parte denominada O recuo depressivo, a autora aborda de forma mais direta o ponto de vista da psicanálise, dando ênfase à clínica. Além de contribuições teóricas significativas ao tema, Maria Rita aponta para o quanto a depressão é um sintoma social, que a própria sociedade fingi não ver.


Essas três obras trazem um aporte teórico para sustentar a escuta clínica desses sintomas, que convocam cada vez mais o analista, e a compreensão de questões da contemporaneidade.


Andréa B. C. Mongeló – psicanalista Sigmund Freud Associação Psicanalítica




8 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo