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  • Foto do escritorJoana C.

Costuras entre literatura e Psicanálise

Literatura e psicanálise se constituem campos diversos, cada um em suas especificidades, mas como analogia podem se aproximar. As metáforas e imagens da literatura serviram ao saber psicanalítico na formação de inúmeros conceitos. Freud foi um ávido leitor, principalmente dos clássicos de seu tempo: Dostoiévski, Flaubert, Thomas Mann, entre outros.

São muitas as possibilidades de interlocução entre a literatura e a psicanálise, e essa seção tem a pretensão – sem nenhuma garantia! – de ampliar as possibilidades de pensar a obra. Embrenhar-se em pontos escondidos, colocar luz em algum ponto, tentando apresentar um olhar para novos aspectos. E tudo isso com o atravessamento da psicanálise.

Essa é uma seção que pode conter spoilers sobre as obras nelas citadas, informações sobre os personagens e /ou o enredo da mesma. Ao mesmo tempo ela é a visão singular de quem está escrevendo, portanto, outros leitores podem nem sequer ter percebido, ao ler a obra, os aspectos aqui pontuados. A isso podemos chamar de singularidade, dos efeitos da literatura em cada sujeito, e onde cada obra toca aquele que a lê.

Para iniciar essa seção, vamos apresentar uma análise sobre o livro:

A FILHA PRIMITVA - Vanessa Passos


O livro de Vanessa Passos foi o vencedor do prêmio Kindle de Literatura (2021) e do prêmio Jacarandá de Escritora revelação (2022), e ao buscar informações sobre a escritora é possível encontrar uma trajetória dentro da escrita muito interessante. Além de Doutora em Literatura e professora de escrita criativa, sua rede social Pintura das palavras, promove acesso a um público diverso: de escritores à desejosos de ingressar nesse mundo.

A obra de Vanessa Passos pode ser tomada sob várias perspectivas, pois apresenta inúmeros temas: a maternidade, a escrita, feridas sociais como o racismo, o machismo e a violência. Diante dessas possibilidades, ao escolher escrever sobre uma delas, deixarei outras de fora, mas que talvez, inevitavelmente, façam interlocuções entre si.

As mulheres no livro de Vanessa não têm nome próprio, são referenciadas como filha, mãe e avó. E esse é um detalhe significativo que não passa desapercebido, pois descobriremos aos poucos, que a personagem principal, por onde se desenvolve a trama, desconhece a história de sua origem. O desconhecimento de nossa história produz que efeitos? O quê da identidade de um sujeito pode ficar obturado a partir do desconhecimento de sua própria história? E esse é o tema por onde escolho abordar aqui, a obra de Vanessa Passos. Uma narrativa que nunca foi lhe contada, e que a personagem decide ir em busca, a partir de sua experiência da maternidade e da escrita. E é através de um pedido para que a mãe lhe conte a sua história, que ela busca preencher as muitas lacunas dessa.

A mãe por sua vez resiste, pela dificuldade em se deparar com sua própria história, tão dura e cruel. E o livro vai se desenvolvendo, entre outras coisas, nesse processo da narradora de tentar desvendar sua história, encontrar uma narrativa, mas que está entrelaçada com a da mãe.

Não era comigo que ela conversava, era consigo, com essa mulher a quem nunca me

permitiu ter acesso e conhecer de verdade” (p.21).


E enquanto ambas se debatem em torno de suas histórias, e vivências do presente, a

personagem narradora se constrói como mãe e escritora. Não sem dor, para as três

envolvidas: mãe, filha e neta.


Hoje não quis sentir ódio da minha mãe. Quis entender seus traumas do passado,

justificar seus erros do presente. Mas como se a vida dela é uma página em branco? E isso fazia de mim uma personagem incompleta, mal construída, sem porquês, nem explicações” (p.63).


A questão sobre a origem é uma busca incessante do ser humano, e está presente em todos nós: de onde eu vim? Qual a minha história? Com quem me pareço? Perguntas que são feitas e dirigidas para si e para outros desde a mais tenra idade. E narrativas vão sendo construídas com fragmentos captados aqui e ali. Todos nós temos uma origem, pertencemos a algum grupo, fazemos parte de uma cultura. E tudo isso vai compor nossa identidade e nos proporciona referências para entendermos quem somos.

E quando existem muitas lacunas que não compõem uma história? Ou que deixam essa narrativa “capenga”? E é isso que a personagem faz, tenta descobrir sua história através da mãe, solicita fragmentos que possam compor essa narrativa. E entendo que a questão não é somente conhecer sua origem, sua história, mas apropriar-se dela e poder contá-la. E esse parece ser o desejo da personagem: ter uma história não permanecer “incompleta, mal construída, sem porquês”.

E também é esse o processo que se dá em uma análise. No seminário 1 (1953/1954)

Lacan aponta que o principal objetivo de uma análise deve ser a possibilidade de restituição da história do sujeito. Narrar a vida em análise, é ressignificá-la, e dela se reapropriar.

Sabemos, portanto, dos processos de ressignificação da história de vida como parte dos efeitos gerados por uma análise. Mas também é possível afirmar que alguns desses processos podem se dar fora da análise, e até mesmo serem um disparador para uma análise. E o romance de Vanessa Passos nos mostra isso. Ao buscar uma narrativa de sua história com a mãe, ela busca compreender o que se passa com ela no presente. Muitas vezes escutamos no senso comum que a psicanálise se ocupa muito com o passado, que é inútil remexer no passado, temos que pensar daqui pra frente. Mas certamente percebemos em análise que esse passado, não é tão passado assim, e se atualiza no presente de diversas formas, inclusive de

sofrimentos.

Ao longo da vida e talvez em alguns momentos mais específicos – no caso do romance a partir da maternidade e da experiência da escrita – é possível fazer uma reordenação das narrativas que o sujeito constrói a respeito de si mesmo.

A narrativa que a personagem tinha era de uma história cheia de lacunas. Ao conseguir

restituir alguns aspectos, preencher algumas lacunas, a partir da fala da mãe, ela tem a

possibilidade de ressignificar e dar um outro destino à sua vida.

O livro nos confirma a importância das narrativas, de narrarmos nossa história como forma de elaborá-la. E o espaço de análise permite que essas narrativas ocorram, e se ressignifiquem ao serem recontadas, não como uma estória de início, meio e fim, já que sabemos que será atravessada pelo inconsciente. Mas podemos entender que se trata de inventar novos modos de ser e estar no mundo, a partir que que foi vivido e do encontro com o outro, no caso da análise com o analista. De incorporar o vivido, o passado que ainda se faz presente.


Andréa B. C. Mongeló

Psicanalista Sigmund Freud Associação psicanalítica




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