• Joana C.

Clínica com crianças


A psicanálise teve sempre a infância em seu horizonte. As crianças foram objeto de observações permanentes, com o intuito de corroborar as hipóteses que surgiam nos tratamentos dos adultos. Além disso, alguns conceitos freudianos surgiram ou foram confirmados, a partir da observação de crianças muito próximas a Freud, como por exemplo, o jogo do carretel, que observou em seu neto.

Apesar disso, as crianças não foram consideradas, inicialmente, como possíveis pacientes. A psicanálise não se propôs desde o seu princípio, a abordar os conflitos no momento em que teriam surgido – a infância- por meio do tratamento analítico de crianças. Foi com Melanie Klein e Anna Freud que a psicanálise de crianças foi conquistando seu lugar na história. Como toda a psicanálise, era preciso que prática com crianças fosse abordada com um espírito livre e sem preconceitos, talvez exatamente como Freud fez ao aceitar “analisar” o pequeno Hans, através de seu pai.

E como vemos mudanças e avanços de lá para cá: atendimento de crianças pequenas, da dupla pais-bebê, referenciais teóricos freudianos, kleiniano e lacanianos sustentando uma prática clínica que visa dar espaço de escuta e acolhimento ao sofrimento. Essa diversidade de perspectivas pode ser encontrada em obras que abordam esse vasto campo.

Um livro recém-lançado A criança em análise e as intervenções do analista, da psicanalista argentina Alba Flesler, aborda questões que acompanham o dia-a-dia de quem trabalha com crianças: as entrevistas preliminares com os pais, a transferência e a resistência dos mesmos, o primeiro encontro com a criança, o jogo e o desenho, até os caminhos por onde circula o fim de uma análise com crianças, seja porque esse término foi trabalhado, seja por uma interrupção, onde isso não foi possível. Ancorada em conceitos lacanianos e inúmeros relatos de sua experiência clínica, temos no livro um panorama muito abrangente do trabalho com crianças.

Outro livro que aborda a clínica com crianças a partir dos conceitos lacanianos é o que faz parte da Série Prática Clínica, Atendimento psicanalítico de crianças, organizado por Adela Stoppel de Gueller e que conta com outras autoras como Julieta Jerusalinsky. Os livros da série tem um enfoque clínico, mas é possível acompanhar as questões teóricas que norteiam as autoras nos casos apresentados. Quais os tipos de demanda que a clínica com crianças apresenta? Quais as especificidades da interdisciplinaridade em um trabalho analítico? E um capítulo muito interessante onde é possível acompanhar a transcrição de uma supervisão em grupo, com a construção das hipóteses clínicas sobre um caso.

Um autor ainda pouco conhecido no Brasil, mas que vem se dedicando há muito tempo ao trabalho com pais e bebês, o psicanalista sueco Bjorn Salomonsson, tem livro traduzido no Brasil pela editora Blucher. Psicoterapia Psicanalítica com crianças pequenas e pais: prática, teoria e resultados, apresenta as ideias do autor, de que tanto os pais quanto os bebês, podem apresentar dificuldades para processar as experiências vividas e com isso se verem tomados por uma ansiedade que pode acabar por empobrecer a qualidade do vínculo entre eles. Conceitos clássicos da psicanálise são revisitados e articulados na clínica pais-bebê, com relatos de situações clínicas, mostrando a potência das ideias do autor.

E aqui, no “nosso quintal”, temos o lançamento do livro de Celso Gutfreind, A nova infância em análise. Em um estilo que Celso denomina como “informal, ou seja, contando histórias e brincando seriamente”, dialogando com a música e a poesia, parte da questão: A nova infância existe? A partir daí acompanhamos o autor por temas como parentalidade e transgeracionalidade, questões clínicas como o uso do celular na psicanálise infantil, contratransferência e a abstinência na técnica com crianças.

Com essas obras temos um panorama atual da clínica com crianças, que segue crescendo a partir de um espírito livre e sem preconceitos, mas sustentada por preceitos teóricos. E assim reafirma seu lugar na Psicanálise.


Andréa B. C. Mongeló – Psicanalista na Sigmund Freud Associação Psicanalítica









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