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  • Joana C.

CARTAS A UM JOVEM PSICANALISTA

Atualizado: 27 de Nov de 2020

Em plena pós-modernidade com todos os recursos tecnológicos existentes, qual o lugar das cartas? Ainda despertam algum interesse?

As cartas são uma das mais antigas formas de comunicação entre as pessoas. Através delas boa parte da história ficou registrada e pode ser contada. Podemos pensar também, de que as cartas foram um meio de registrar histórias individuais, já que serviram para contar fatos históricos, descrever pessoas e relações, modos de ser e viver. Atualmente, elas se contrapõe a instantaneidade do online, da comunicação por aplicativos, de respostas curtas e menos detalhadas.

Sempre que nos deparamos com um livro em forma de cartas, experimentamos uma sensação de intimidade e proximidade com o autor, ou os envolvidos na obra em questão. Acredito que o fascínio se dê pela sensação de confidencialidade, de estar no lugar de testemunha de algo muito particular. Talvez o mais clássico exemplar desse gênero, seja Os sofrimentos do jovem Werther, que traz as cartas deste dirigida a um amigo, relatando todo seu sofrimento. É possível sentir a dimensão da sua dor, tanto que a obra foi questionada como um possível estímulo ao suicídio, denominado na época como efeito Werther.

Na Psicanálise vemos Freud em grande interlocução com seus pares, compartilhando suas inquietudes teóricas e clínicas, através de cartas, meio de comunicação possível do momento. Conforme Emile Rodrigué em Sigmund Freud e o século da psicanálise: 1895-1995, Freud escreveu em torno de 20.000 cartas, sendo que a maioria se perdeu, tendo sido publicadas somente 4.200. Vemos então, o quanto a psicanálise em seus primórdios, foi atravessada por esse recurso. E atualmente, como está?

Aponto a obra de Heitor O’Dwyer de Macedo como um dos pouco exemplares nessa linha literária, dentro da psicanálise. Em seu livro Cartas a uma jovem psicanalista, ele traz em forma de cartas, respondidas a uma interlocutora, questões teóricas e de sua prática clínica como psicanalista. Os temas vão desde questões técnicas como enquadre, divã e transferência, até psicose, angústia e histeria. Todas com vastas notas e referências bibliográficas para aprofundamento posterior do leitor. A escrita do autor é fluida, os capítulos podem ser lidos conforme o interesse do leitor, transformando a leitura em agradável experiência. Nos capítulos dedicados a questões técnicas, acompanhamos seu ofício de analista, nos sentindo quase presentes na cena. Ao mesmo tempo, percebe-se grande sustentação teórica nos temas abordados, o que transforma a obra também em fonte de consulta sobre diversos temas.

Andréa B C Mongeló - Psicanalista


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