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  • Joana C.

Autismo e Psicanálise

O mês de conscientização sobre autismo foi abril, mas não deixamos de fazer uma leitura e apresentação do texto que a Psicanalista Andrea preparou para te auxiliar a conhecer algumas obras sobre a temática. Confere e deixa teu comentário!

A Organização da Nações Unidas (ONU)escolheu o dia 2 de abril como data para reforçar a conscientização mundial sobre o transtorno do espectro autista.

Para a medicina, o autismo ou transtorno do espectro autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por atrasos em campos como a fala, a linguagem, dificuldades na interação social e pela presença de comportamentos ou interesses repetitivos.

E a psicanálise, o que tem a dizer, e como vem pensando a clínica com esses pacientes?

Atualmente é possível encontrar um bom número de obras sobre o tema, o que nos indica o grande número de psicanalistas dedicados a ele, inclusive no Brasil.

Começo por uma obra que traz um viés interessante para a clínica: O tratamento psicanalítico de crianças autistas – Diálogo com múltiplas experiências, de Tânia Ferreira e Angela Vorcaro. O livro é resultado do projeto de pesquisa das autoras, que tem como ponto central, entrevistas com psicanalistas sobre suas experiências ao acompanhar autistas em processos de análise. As autoras apresentam desde o cenário da pesquisa sobre autismo em psicanálise, passando pela definição do conceito ainda tão impreciso, quanto a questão diagnóstica que envolve o tema. Acentuando a “ousadia” da psicanálise em voltar o seu olhar para o sujeito que ali está e sua singularidade, “na contramão de ver consolidadas as bases genéticas únicas para todos”(p.71). O capítulo final traz questões sobre a prática analítica com esses pacientes, como a compreensão das crises que podem parecer apenas descargas motoras, mas que contém uma função psíquica relevante.

Nessa mesma linha O autista e a sua voz de Jean-Claude Maleval, traz em seu livro um revisão histórica das abordagens psicanalíticas do autismo, desde as perspectivas teórico-clínicas de Margaret Mahler, passando por Kanner que tenta incluir o autismo em uma teoria geral do desenvolvimento da criança e Melanie Klein com o caso Dick. Apontando como hipótese entre todos eles, que estamos diante da patologia mais arcaica de todas. Os dois últimos capítulos: Qual o tratamento para o sujeito autista? E A aprendizagem não basta, afirmando que a aprendizagem não bastaria como forma de tratamento, porque “a autonomia resulta de uma escolha que não se ensina”(p. 224), mas que tem potencial para surgir a partir de recursos que forem oferecidos ao sujeito.

Outro livro que se encontra já em quarta reimpressão revisada, e portanto mostra o vigor dos temas apresentados é A voz da Sereia, o autismo e os impasses na constituição do sujeito, publicações de Marie-Chrisine Laznik, pesquisadora de referência na área. Composto por artigos que se encontravam dispersos em várias publicações e outros inéditos, vemos abordados temas que vão da metapsicologia do infans, passando pelo tratamento conjunto Mãe-bebê e a apresentação de um caso. Além disso, na parte III é possível encontrar conferências e entrevistas com Marie- Christine Laznik, onde é possível conhecer suas contribuições sobre o atendimento em saúde pública, assim como sinais de risco que podem identificar precocemente o autismo em bebês entre 4 e 9 meses.

Para finalizar essa seleção de leituras sobre o tema Arthur, um autista no século XXI, de Maria Cristina Kupfer, professora do Instituto de Psicologia da USP. Em um formato singular, o livro apresenta um romance com narrativa poética, buscando trazer uma visão diversa do autismo, mas sem abrir mão do conhecimento científico. Através de uma obra de ficção, a autora buscou recriar um personagem, com base nas experiências vividas com pacientes ao longo de muitos anos. Ela afirma que o livro foi movido por um desejo de reparação, de muitas das crianças que viu em sua vida profissional e que seguiram fechadas em si mesmas, e uma parte menor delas que “retomou o desenvolvimento rumo a uma vida no interior da comunidade dos homens e mulheres do nosso tempo”. Leitura instigante ao mesclar literatura e linguagem científica.


Andréa Mongeló - Psicanalista




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