• Joana C.

André Green e a psicanálise contemporânea

Atualizado: 11 de fev.

A obra do psicanalista André Green, é composta de 25 livros e cerca de 50 artigos publicados em revistas psicanalíticas. Seus escritos sobre psicanálise abarcam praticamente todos os temas atuais relacionados com a clínica. Além disso, muitos foram os psicanalistas que se debruçaram sobre sua obra, e a partir daí também produziram.

O psicanalista, nascido no Cairo em 1927, em uma família judaico-sefardita, cresceu em meio a grupos étnicos diversos, mas imerso na cultura francesa. Aos 19 anos emigrou para a França para estudar medicina, mas sua busca também era por uma nacionalidade, que naquela época, era negada à maioria da comunidade egípcia. Um arrojo, como tantos outros que fizeram parte da trajetória de Green, e deixam marcada sua importância ao convocar os psicanalistas a explorarem “novas vias da terapia psicanalítica” (Green, 2007) para lidar com os impasses, complexidades e desafios da clínica contemporânea.

Sua capacidade de transformar esses impasses clínicos em conceitos metapsicológicos, buscando aumentar o alcance da psicanálise para pacientes que não suportariam o enquadre psicanalítico padrão, rendeu inúmeros conceitos e obras. Narcisismo de vida e narcisismo de morte (1988), Loucuras privadas(2017), O trabalho do Negativo(2009), Orientações para uma psicanálise contemporânea(2002) são apenas alguns deles.

O livro Cadeira de Eros, esgotado há algum tempo, teve uma nova edição lançada pela Climepsi Editores, uma editora portuguesa. No que Green nomeia como Advertência, e não o usual termo Introdução, ele adverte que “Eis uma obra escrita por um psicanalista, que deveria tratar do sexual, e que não diz uma palavra sobre zonas erógenas e a sexualidade infantil, não aborda nem o complexo de Édipo(...)” Mas que se propõe a ser “uma atualização da problemática do sexual na psicanálise contemporânea”. Encontramos no livro, a partir da interlocução feita pelo autor, entre Freud e o pós-freudianos, considerações sobre o lugar da sexualidade na teoria psicanalítica hoje.

Como tantos outros autores de vertente psicanalítica francesa, Green fez seu retorno a Freud, como forma de fazer avançar a psicanálise, apostando no diálogo com suas diferentes escolas (Klein, Bion, Winnicott, Lacan e outros). Interlocução essa, que tinha como objetivo, lutar contra a fragmentação do saber em psicanálise, para preservar sua identidade e sobrevivência.

Um dos autores com quem Green teve uma fecunda parceria foi Fernando Urribarri, e um dos frutos dessa parceria é o livro Do pensamento clínico ao paradigma contemporâneo (2019), composto de diálogos e entrevistas entre eles, que englobam o período de 1991 até 2011.

Uma das entrevistas relatadas nesse livro, foi gravada no consultório de André Green em maio de 2011, pouco menos de um ano antes de sua morte em janeiro de 2012. Ali é possível acompanhar como se deu sua escolha pela Sociedade Psicanalítica de Paris, suas objeções em relação a Lacan, além de temas como a “estrutura em quadrante” e “pensamento clínico”. Além de suas impressões sobre o analista de Marilyn Monroe e sua proximidade com o filósofo Louis Althusser.

A psicanalista Talya Candi, nascida no Líbano, mas desde o final da década de 80, vivendo e clinicando no Brasil, transformou em livro sua tese de doutorado. O Duplo Limite: O aparelho psíquico de André Green, aborda os dois eixos propostos pelo autor, o histórico e o clínico. Dividido em duas partes conforme os dois eixos, na primeira vemos as interlocuções de Green e as raízes de seu pensamento, e na segunda suas construções teóricas sobre a constituição do psiquismo, as representações e a problemática dos limites. Uma obra que aborda de forma profunda e clara, aspectos centrais da proposta greeniana de pensar a psicanálise contemporânea.


Andréa B.C. Mongeló – psicanalista Sigmund Freud Associação Psicanalítica






9 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo