Nota da autora

 (Katia Bonfanti)

A motivação que me fez organizar experiencias cotidianas em textos, com um estilo personalizado, simples, mas não simplista de retratar meu modo de perceber o momento, veio numa bela manhã de sábado. Poderia chamar, as escritas, de crônicas, mas quando escrevi não pensei em categorias nem em formatos. Foram surgindo a medida em que a estação virava a chave do equinócio lentamente. Enquanto apreciávamos os primeiros dias de outono, aqui na América do sul, do outro lado do planeta a primavera dava ares de floração. Embora distantes, caminhando para paisagens e coloridos diferentes, o Planeta se unia em um único tempo de aflições. O tempo em que a humanidade percebe que precisa mudar comportamentos, aflorar sensibilidade e suportar uma onda gigante de sofrimento. É! As crises trazem mesmo sofrimento. São momentos de bifurcação nos rumos da estrada.

Ficamos ansiosos, queixosos, amedrontados e sentimos na carne a dor das perdas. E são perdas de todas as magnitudes e esferas. As crises rompem as membranas do conforto, do sossego da alma. É assim que me sinto agora. E foi esse motivo que me fez acordar nesse sábado fresco e me sentar na varanda para escrever. Não escrevo sob demandas externas aos meus desejos, somente registro desassossegos de modo criativo. Sou como você que me lê. Que se desacomoda com a realidade e busca modos de construir outros entendimentos usando as ferramentas que lhe vem à ideia.

Reunir impressões cotidianas de perspectiva descontraída e criativa é um desafio gigante em meio a um contexto desolador, nem quero me propor a isso como meta. E tragédias já temos demais, então, não me proponho a discorrer sobre elas.  Esses embates desconcertantes, embora nos firam e nos entristeçam, também nos provocam a novos modos de viver.

Em meio a tudo isso, nessa manhã provocativa de outono, sinto que mudanças de perspectivas são experiencias interessantes e alentadoras que podem ser partilhadas, mesmo em tempos e em contextos arruinados como os que já vimos na história e em algum grau estamos revivendo agora. Quem não sofreu, se surpreendeu e admirou a Anne Frank com suas sopas de batatas com gosto de tantas coisas, menos o de batatas? E aquelas batatas nutriam sua força e sua criação. Nem consigo imaginar as condições em que viveram aquelas pessoas, mas senti a emoção que escorreu pela tinta da caneta de Anne. Mas todos vimos que dentro de uma escrita que veio da tragédia, luziu pontinhos de esperança.  No fim, esperamos encontrar os pontos de luz que sustentavam a vida, mesmo dentro das nossas tragédias individuais, grupais, planetárias. É isso que nos sustenta.

Quando o céu está bordado de estrelas, mas só vemos a escuridão, fica difícil andar, não é mesmo? Por outro lado, quando, no breu desolador vemos um vaga-lume lampejar luminosidade, acendemos um fio de esperança e seguimos ávidos pela trilha.

Traduzir os caminhos dos vaga-lumes que ando seguindo nesses dias é o que eu vou fazer. Registrar algumas trilhas por onde tenho enxergado lampejos em terrenos bem escuros. Meus textos não cumprem quesitos de “auto ajuda”, longe disso, que as palavras me salvem desse apequenar.  Mas, tragam experiencias de vida, da minha vida, de investimento em novos olhares e em diferentes perspectivas. Essa possibilidade de olhar e de escrever é tão minha, como é tua e de todos nós, sensíveis a vida que compomos.  Ter ideias, adaptar-se, perder, desconstruir e edificar, dar passagem para a criação é possibilidade do humano. Em tempos de crise, essa humanidade é muito requisitada e necessária para seguirmos fazendo a vida acontecer.

E agora?

Desejo que os vaga-lumes apareçam por aí...eles sempre andam por perto, mas é preciso abrir a janela, olhar para a escuridão e apreciar o brilho ínfimo do vaga-lume. Pode fazer o que você quiser com ele. Ele é seu. É! Isso, pode ser simples, cafona, desastrado, complexo, belo ou pobre...mas tem efeito para você. Esse é o sentido do CriseCriAção!

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